A Separação

Dudu era uma criança de oito anos comum. Gostava de acordar cedo aos sábados para ver desenhos, jogar bola com seus amigos e brincar com seus brinquedos. Ele era filho único de um casal jovem que se amava muito. Dudu sabia disso, mesmo que nos últimos tempos ele só escutasse brigas a portas fechadas.

Como costumava fazer, Dudu estava com todos os seus brinquedos espalhados a sua volta pelo chão do quarto quando sua mãe entrou. Ela abriu caminho empurrando delicadamente alguns brinquedos com o pé e sentou ao lado do filho.

 

- Filho. Precisamos conversar.

 

Sem largar o boneco do Batman que estava em sua mão, Dudu virou o rosto para escutar o que sua mãe tinha a dizer.

 

- Eu e seu pai decidimos que não vamos mais morar na mesma casa. – começou a mãe, olhando diretamente nos olhos de Dudu. – Nós ainda nos amamos, mas é melhor para todo mundo.

 

A dúvida de Dudu não foi diferente da primeira questão que surge na cabeça de qualquer criança na mesma situação.

 

- É culpa minha? – disse Dudu, desviando o olhar.

 

- Claro que não, Filho. – disse a mãe, colocando seu braço em volta dele. – Isso é algo que, às vezes, acontece entre adultos.

 

Ela lutou para conter as lágrimas e o abraçou. Parado na porta, o pai de Dudu assistia a cena.

 

- Sua mãe falou com você, campeão? – disse o pai, em um tom que beirava o infantil.

 

- Sim. – respondeu a mãe, apertando a cabeça do filho em seus braços.  – Ele perguntou se é culpa dele.

 

- E o que você respondeu?

 

- Que não. – respondeu a mãe.

 

- Isso é discutível, mas ok. – respondeu o pai, se afastando de qualquer discussão.

 

- O que é discutível?

 

- Antes de ele nascer, nós não tínhamos metade dos problemas que temos hoje.

 

- Sim, mas nada disso é culpa dele.

 

- E a culpa é de quem?

 

A mãe soltou Dudu de seu abraço para se dedicar exclusivamente à discussão com o pai.

 

- Nossa.

 

- Meio injusto, não? Ele mora aqui também. Deveria assumir um pouco da responsabilidade.

 

- Ele é uma criança. Que responsabilidade ele tem?

 

Dudu ouvia a conversa de cabeça baixa, fingindo estar focado em seus brinquedos.

 

- Nós não podemos sair à noite por causa dele.

 

- Nossos problemas são muito maiores do que poder sair à noite. – disse a mãe.

 

- Uma coisa leva a outra. – respondeu o pai.

 

O breve silêncio foi interrompido por Dudu, com a voz trêmula.

 

- Então a culpa é minha?

 

- Não. – exclamou a mãe.

 

- Talvez não culpa, mas tem um dedinho nisso. – disse o pai, ainda tentando manter o tom infantil.

 

- Você vai traumatizar o menino. – disse a mãe se virando para Dudu. – Não escuta o papai.

 

- Eu só não quero um filho que não assuma responsabilidade por seus erros.

 

- Então explica como ele é responsável por você traçar sua secretária.

 

- Com prazer. – disse o pai, finalmente entrando no quarto, chutando os brinquedos em seu caminho e sentando do outro lado de Dudu. – Simples filho. Nós sempre fomos muito ativos no quarto, mas parece que você nasceu com o objetivo de ser nosso empata-foda.

 

- Mas isso não é culpa minha. – disse Dudu, cheio de confiança. – Certo, mãe?

 

- Não sei. Talvez um pouco. – respondeu a mãe, para o choque de Dudu. – Você mamou até os três anos de idade. Meu peito parece uma sacola de areia enchida pela metade.

 

- Não é nem pela questão física. – continuou o pai. - Eu amo o corpo da sua mãe do jeito que ele é, mas a gente não tem dois segundos sozinhos. Você está sempre por perto.

 

- E não é só isso. – completou a mãe para Dudu. – Sua personalidade também não ajuda. Só reclama, tem medo da própria sombra.

 

- Então por que vocês me tiveram?

 

- Porque sempre foi meu sonho ser mãe.

 

- E eu sou divertido, sua mãe também. – continuou o pai. – Como íamos imaginar que você ia ser assim.

 

Dudu jogou os brinquedos e se pôs de pé entre os pais.

 

- Por que não me mandam embora? – gritou Dudu.

 

- Filho, calma. Estamos só conversando. – disse a mãe, afagando seu cabelo, tentando tranquiliza-lo.

 

- Além do mais, é contra lei abandonar o filho. Eu pesquisei. – disse o pai, repetindo o gesto de carinho da mãe. – Você acha que a minha primeira ideia foi me separar da sua mãe? Dela eu gosto.

 

Dudu se segurava para não chorar. Sua respiração era forte e acelerada.

 

- Não fica assim, filho. São coisas da vida. – disse a mãe, em sua voz confortadora. – Tem algo que você queira perguntar pra gente?

 

Dudu respirou fundo e começou:

 

- Com quem eu vou morar?

 

- Aqui com a sua mãe durante a semana e comigo nos finais de semana que eu não tiver nada melhor para fazer.

 

- E você vai embora quando?

 

- Ao término dessa conversa.

 

Dudu se sentou no chão novamente. Era muita informação para processar. Ele refletiu sobre tudo que havia sido dito e fez a pergunta derradeira.

 

- Vocês ainda me amam?

 

Antes de responder, a mãe o abraçou com toda a força do mundo. Lágrimas brotavam de seus olhos.

 

- Claro que sim, filho.

 

O pai também se aproximou. Não o abraçou, apenas bagunçou seu cabelo de maneira brincalhona.

- Essa é a magia de ter filhos. Você os ama mesmo que eles não deem motivo.

- Estamos entendidos, filho? – perguntou a mãe.

- Sim. – respondeu Dudu, cabisbaixo.

 

- Eu preciso ir. – disse o pai, se levantando e indo em direção à porta.

 

Dudu sentiu o peso da situação em seus ombros e achou que precisava agir.

 

- Papai! – disse Dudu, levantando e correndo até a porta.

 

- Sim, filho. – disse o pai, esperando à porta.

 

- Eu prometo que vou tentar atrapalhar menos. – disse, com lágrimas nos olhos.

 

O pai agachou na frente de Dudu e colocou as mãos em seus ombros.

 

- Filho. – disse, abrindo um sorriso. – Esse problema não é mais meu.

FIM