a vOLTA DO TINHOSO

Voltando da faculdade, Bruninho apertava seus pertences contra o corpo enquanto caminhava à noite pelo vale do Anhangabaú. Atento para evitar assaltantes, mendigos raivosos e assassinos. Cenários que lhe pareciam possíveis para tal lugar e horário.

 

Bruninho sentiu o chão tremer e notou o surgimento de rachaduras sob seus pés. Os pedregulhos da rua se movimentavam em antecipação ao que estava para acontecer. Jatos de vapor vazavam pelas frestas abertas e misturavam-se à névoa da noite. Em um movimento ágil, pulou para cima de um banco a poucos metros do local da primeira rachadura. As rachaduras se transformaram em uma cratera de três metros de diâmetro. Bruninho se aproximou com cautela, mas não conseguiu ver o fundo da cratera.

 

Momentos depois, uma luz surgiu das profundezas da cratera, aproximando-se com monstruosa velocidade. O barulho era como se uma panela de pressão gigante estivesse prestes a estourar. Bruninho se jogou para trás quando um estrondo anunciou a chegada da luz à superfície. Uma voz grave ecoou pelo vale:

 

- Enfim Livre. O Mundo agora será meu.

 

O dono da voz possuía aparência humana, embora muito maior. Quase três metros de altura, ombros largos e uma cabeçorra quadrada de olhos flamejantes. Bruninho tentou se afastar.

 

- Onde pensa que vai, Verme?

 

- Vou pra casa. – disse Bruninho, temendo que aquilo fosse uma nova tática de distração de assaltantes que planejassem lhe roubar.

 

- Você sabe quem eu sou?

 

- Não. Desculpa moço, mas estou atrasado. Vou perder o meu trem.

 

- Eu sou aquele que vai destruir a humanidade. – disse o Gigante, mesmo sem Bruninho perguntar. – Não quer saber quem eu sou?

 

A maioria dos doidos do centro era inofensiva, pessoas com carência de atenção, então Bruninho deu o braço a torcer.

 

- Tá bom. – disse em um suspiro. - Quem é você?

 

- O portador da luz.

 

- Da estação?

 

- Não zombe de mim, seu Verme.

 

- Moço, dá pra parar com esse negócio de verme? – pediu Bruninho.

 

- Não me chame de moço. Meu nome é Lúcifer. – disse o gigante, empinando o queixo e arregalando os olhos flamejantes.

 

- O diabo?

 

- O próprio.

 

- Tá fazendo o que no vale do Anhangabaú?

 

- Voltei para destruir esse paraíso criado por Deus. – disse Lúcifer, abrindo os braços colossais, indicando tudo a sua volta.

 

Bruninho olhou ao redor com atenção.

 

- Tem certeza que está no lugar certo?

 

- Por quê?

 

- Não existe paraíso nenhum. Pelo contrário, o mundo tá meio bosta. E a culpa é sua, não?

 

- Não. – disse Lúcifer, sem entender. - Eu estava preso há quase dois mil anos.

 

- Por quê? – perguntou Bruninho.

 

- Um trampo que eu fiz.

 

- Então chegou atrasado. O mundo não tem muito que piorar.

 

Nem os olhos flamejantes de Lúcifer foram capazes de esconder sua decepção.

- Poxa, eu fiquei tanto tempo pensando nas formas que eu ia acabar com o mundo.

 

- A fila anda né.

 

- Eu achei que sem minhas ações isso aqui viraria um paraíso.

 

Bruninho ficou ressentido por ter sido o portador das más noticias e se viu na obrigação de reparar pelo menos parte do dano causado.

 

- Quer me contar seus planos? – disse, se aproximando de Lúcifer. - Às vezes tem alguma coisa original.

 

- Tudo bem. – disse Lúcifer, chutando um pedregulho no chão despretensiosamente. – Eu pensei em disseminar o ódio em grande escala. Fazer as pessoas se odiarem por qualquer coisa.

 

- Entendi. – disse Bruninho, compreensivo. – É que as coisas já são assim, mas calma, isso foi só a primeira ideia. Fala mais.

 

- Eu pensei em criar uma doença poderosa. Qualquer um pode pegar. – disse Lúcifer, com um sorriso tímido. – E a maravilha é que ela seria causada por praticamente tudo.

 

- Ah, tipo o câncer?

 

O brilho flamejante nos olhos de Lúcifer se apagou. Ele se sentou no banco.

 

- Essa era minha melhor ideia.

 

Bruninho sentou ao seu lado no banco, como se estivesse lidando com uma criança.

 

- Não desanima. Continua.

 

- Eu posso deixar grande parte do mundo passando fome.

 

- Já é assim.

 

- Desigualdade? Guerras? Violência? Luxúria?

 

- Existe, Existe, existe e existe, embora esse último não seja mais tão mal visto.

 

- Então não sei o que fazer. – disse Lúcifer, desolado.

 

- Não tem mais ideias?

 

Constrangido, Lúcifer fez que não com a cabeçorra.

 

- Porra, Lu. Dois mil anos para pensar nisso? Eu penso em mais maldade pra fazer

com as pessoas em uma viagem de trem. – disse Bruninho, de forma enérgica, quase rude.

 

- Não precisa ficar bravo. – disse Lúcifer, encostando o queixo quadrado no peito.

 

- Não estou bravo, apenas decepcionado.

 

- Eu não achei que o mundo estaria assim. – justificou-se Lúcifer.

 

- Pois é, mas hoje em dia é assim mesmo. Se vacilar, fica obsoleto.

 

Bruninho se aproximou de Lúcifer e deu tapinhas em seu ombro.

 

- Não fica assim, pelo menos o crédito é todo seu.

 

- Não gosto de levar crédito pelo trabalho dos outros.

 

Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas olhando para o nada. Bruninho se incomodou com a tristeza de Lúcifer. Postou-se de pé e disse:

 

- Não deixa isso te abalar. Existe muito mal para ser feito no mundo ainda. Não é porque as coisas estão ruins que não podem piorar. Sou testemunha disso.

 

- Você tem razão. Eu sou inteligente, tenho recursos, tenho valor. – disse Lúcifer, empinando o peito.

 

- É isso aí.

 

- Eu já até pensei no que fazer.

 

- Me conta.

 

Lúcifer se pôs de pé em um momento de êxtase.

 

- Eu vou levar os piores desgraçados ao poder. A escória da escória. Gente que não se preocupa com ninguém, que não se importa com nada além deles mesmos, se as pessoas ficam doentes, morrem. Essas pessoas farão o meu trabalho sujo.

 

- Essa é a sua ideia?

 

- Sim, não consigo pensar em nada pior que isso. Por quê?

 

- É realmente uma ideia nefasta, mas já ouviu falar de Brasília?

 

FIM