BLACKOUT

Videogame, pizza e cerveja. Uma noite rotineira para o casal Marcelo e Karina. Os dois nem haviam percebido que caía o mundo do lado de fora do apartamento até que seu foco foi interrompido por um clarão que invadiu a sala, seguido de um estrondo colossal.

 

Um segundo depois, tudo que era elétrico se apagou, deixando não só o casal, mas também o bairro inteiro na escuridão completa. Os dois se olharam e disseram em uníssono:

 

- Merda.

 

Marcelo se arrastou até a cozinha e desenterrou duas velas da gaveta da bagunça. As acendeu e voltou com cada uma em uma xícara.

 

- Se for como da outra vez, vamos ficar até amanhã no escuro. – apontou Marcelo.

 

Após alguns poucos minutos, os dois já estavam no ápice do tédio.

 

- Quer pegar o carro e ir ao cinema? – disse Karina.

 

- Nem morto. Vinte andares de escada. Não tem uns livros ai? Uns jogos de tabuleiro?

 

- Não. – respondeu Karina, de forma ríspida. – Nós jogamos fora na sua fase minimalista.

 

- E o baralho?

 

- Jogamos fora na sua fase religiosa. – ironizou ela, novamente.

 

- E o que tem pra fazer?

 

- Que não ligue na tomada? Nada.

 

- Merda. – exclamou Marcelo.

 

- Se você parasse de seguir cada tendência que aparece no caminho.

 

- Desculpe por tentar evoluir como pessoa. – debochou Marcelo.

 

- Duro é que sua evolução começa na segunda, mas não sobrevive até quinta-feira.

 

- Não vamos brigar agora. Que tal a gente apenas conversar? – sugeriu Marcelo. – Nunca tivemos uma conversa profunda.

 

- A gente conversa o dia inteiro.

 

- Sobre banalidades. Eu quero dizer uma conversa que nem nos filmes. Do cara que conhece uma garota no topo da torre Eiffel e discutem a vida inteira nas horas seguintes.

 

- Você sente falta disso? – questionou Karina.

 

- Às vezes, sim. – confessou Marcelo.

 

- Eu contei que minha bisavó transava com o carteiro. Isso é bem profundo.

 

- É íntimo, não profundo.

 

- O que seria profundo então?

 

- Seria profundo se discutíssemos os motivos que levaram sua bisavó a transar com o carteiro. – explicou Marcelo.

 

- Esse tipo de conversa que você sente falta? – disse Karina, desconfortável. – Ela se sente sozinha e colocou uma prótese de quadril recentemente, acho que quis colocar à prova.

 

- Não. – interrompeu. – Não especificamente porque sua bisavó transou com o carteiro, mas coisas nesse sentido. Por que as coisas da vida são como elas são.

 

- Que mais?

 

- Eventos do passado que ainda nos assombram.

 

- Você tem algum nesse quesito?

 

- Tenho, mas não quero falar. Você vai me achar esquisito.

 

- Provavelmente, mas não temos nada melhor pra fazer, então fala.

 

- Há uns vinte anos, eu viajei para a fazenda de um amigo meu. Estava de noite e um sapo gigantesco apareceu do lado de fora da casa. Eu joguei uma pedra pra tentar fazer com que ele fugisse, mas sem querer acertei no meio da cabeça dele. A cabeça dele fez um “ploft” e afundou.

 

- Tá, e daí?            

 

- É isso. Até hoje eu me sinto culpado pensando na cabeça deformada do sapo. Pior que ele continuou parado me olhando.

 

- Jura por Deus que seu cérebro reserva um espaço para esse pensamento? Um sapo que você apedrejou vinte anos atrás? O bicho deve ter morrido no dia seguinte.

 

Marcelo abraçou os joelhos e começou a balançar negativamente a cabeça, como se fosse um soldado tendo flashbacks da guerra do Vietnã.

 

- Ele não fez nada pra mim. Nunca entendi por que a cabeça dele afunda.

 

- Vai ver era um sapo bebê e você acertou a moleira dele. – sugeriu Karina.

 

- Nem brinca com uma coisa dessas.

 

- Você está sofrendo por um sapo que matou há vinte anos, mas nem conhecia a história do sapo. Ele poderia ser um lixo de sapo, que bebia e batia na mulher e girinos dele. E se fosse o Mussolini dos sapos e você na verdade prestou um serviço para a comunidade anfíbia?

 

- Sinceramente espero que sim.

 

- Era esse tipo de conversa que você queria? Sexo das bisavós e homicídio na lagoa?

 

- Pensava em algo mais cabeça, mas é por ai.

 

- Gostei. Vamos continuar. – disse Karina. - E o sonho de ser escritor, por que não vai atrás?

 

- Eu corro atrás.

 

- Quando? Fica falando que vai escrever, mas chega e fica enterrado no videogame até a madrugada.

 

- Fico porque você me chama. Ao invés de ajudar, atrapalha. – acusou Marcelo.

 

- Só o que me faltava. Não tenho filho desse tamanho pra ficar tomando conta.

 

- Não é tomar conta, é ajudar.

 

- Não tenho bola de cristal, Querido. Quando quiser minha ajuda, é só pedir. Você também não ajuda nas coisas que eu faço.

 

- Achei que você não gostasse de outras pessoas se metendo nas suas coisas.

Os dois ficaram em silêncio, se olharam e logo desviaram o olhar.

 

- Você quer minha ajuda? – perguntou Marcelo.

 

- Seria bom. – respondeu Karina. – Dessa forma ninguém poderia nos parar.

 

- Então chega de desculpas. – disse Marcelo. – Vamos começar a dormir e acordar cedo.

 

- Seremos máquinas de produtividade. – exclamou Karina.

 

- Em alguns anos, as pessoas vão perguntar onde nosso sucesso começou e lembraremos esse momento. – profetizou Marcelo.

 

Os dois se encararam intensamente e deram um abraço apertado, como se fossem deuses nórdicos prestes a encarar a batalha de suas vidas. Durante o abraço, os controles do videogame vibraram, anunciando a volta da luz. Eles se olharam.

 

- Só mais uma partida antes de começar? – sugeriu Marcelo, pegando um dos controles.

 

- Leu minha mente.

 

FIM