BLITZ CATÓLICA

Na frente de sua casa, os irmãos Carlos e Igor aguardavam ansiosos por seu amigo Nilton, que ficou de busca-los para irem a uma festa à fantasia na zona sul da cidade. Os irmãos estavam fantasiados de padres. Roupa social preta, um terço de latão e a gargantilha branca. Após certo tempo, Nilton, vestido de pirata, apareceu em seu gol bolinha.

 

- Desculpem a demora, tive que passar pra pegar um negócio. – disse Nilton, pulando para o banco do passageiro. - Dirige aí, Carlos.

 

Carlos se colocou na posição do motorista e os três partiram. A animação dos três durou pouco. Na primeira ponte que entraram, deram de cara com uma blitz policial fechando todas as pistas. Pelo menos dez viaturas, trinta policiais e até cães farejadores. Não havia como sair dali e nenhum carro passava sem a vistoria minuciosa dos policiais. Quinze carros os separavam da Blitz.

 

- Eu estou passando mal. – disse Nilton, abrindo a porta do carro e saindo de fininho.

 

- Aonde você vai? – disse Carlos.

 

- Até o posto. Leva o carro e depois eu pego um táxi. – disse ele, praticamente correndo no sentido contrário da blitz. Os irmãos se entreolharam pelo retrovisor.

 

Carlos abriu os vidros, acendeu as luzes internas e deixou as mãos visíveis sobre o volante.

 

- Deixa o documento do carro e a habilitação fácil. – sugeriu Igor, ao ver que restava apenas um carro entre eles e os policiais. – Para acelerar o processo.

 

Carlos pegou sua habilitação e começou a procurar o documento do carro. Abriu o quebra-sol, viu nas laterais e por último abriu o porta-luvas. Seus olhos se arregalaram, o coração disparou e sua espinha gelou.

 

- O que foi? – perguntou Igor, sem entender a reação do irmão.

 

Carlos apenas apontou. O documento estava ali, junto com uma caixa de óculos, um pacote de camisinhas e um tijolo de uma substância branca embrulhada com durex transparente.

 

- Eu vou matar o Nilton. – disse Igor.

 

- Depois que a gente sair da cadeia né? Olha o tamanho dessa porra.

 

O carro da frente andou e o policial, já impaciente, fazia sinal para que Carlos andasse. Carlos pegou o documento, deu um tapa fechando o porta-luvas e avançou com o carro.

 

A vontade de Carlos era se ajoelhar pedindo perdão, mas nutria uma pequena esperança que os deixassem passar direto. O Policial se aproximou do vidro dos dois, que abriram sorrisos simpáticos e temerosos.

 

- Encosta naquela vaga que o Sargento Dos Santos vai falar com vocês. – o policial indicou a vaga e Carlos estacionou, conforme solicitado. A esperança dos dois era inexistente agora.

 

- Joga pela janela. – sussurrou Igor.

 

- Eu não vou jogar um pacote de um pó branco pela janela no meio desse batalhão.

 

- Não sabemos se é cocaína. – disse Igor, choroso e esperançoso. – Pode ser farinha de trigo.

 

- Para que o Nilton ia andar com um bloco de farinha de trigo? Vai fazer um pão na festa? Acorda pra vida. – pelo retrovisor, Carlos viu o Sargento se aproximando. – Não fala nada que eu vou tentar livrar nossa cara.

 

O Sargento parou do lado da janela e disse seriamente:

 

- Boa noite, Padre. – Carlos estranhou, mas olhou para baixo e viu o terço pendurado em seu peito.

 

- Boa noite, meu filho. – respondeu prontamente, com um sorriso supostamente pacífico no rosto. Igor lhe olhou confuso, mas logo compreendeu.

 

- Nós estamos fazendo uma averiguação rotineira. Eu vou precisar do documento do carro e do senhor. – Carlos entregou de imediato sem desmanchar o sorriso. – Eu só preciso consultar se está tudo certinho e já libero os senhores.

 

- Tudo bem, meu filho. Eu aguardo.

 

- Mas antes, Padre. Posso falar uma coisa com o senhor? – Carlos assentiu receoso. – Eu e minha esposa estamos tentando engravidar há mais de um ano e nada. Existe algo que eu possa fazer? Uma prece, uma promessa?

 

- Faz o seguinte, meu filho. Enquanto você vai lá liberar o nosso carro, nós vamos fazer uma oração por você. Pedindo para Deus abençoar suas sementinhas.

 

- Obrigado, Padre. – disse o Sargento, contente e saiu para a averiguação.

 

- Eu não vou orar por sementinha nenhuma. – bradou Igor.

 

- Se ele não revistar o carro, eu oro até pelos bagos dele. – disse Carlos.

 

Ao lado do carro dos irmãos, um policial passava com seu cão farejador. O cão travou na lateral da porta do passageiro.

 

- Continua a andar, cachorro. – suplicou Carlos, sem sucesso. O cachorro latiu com toda a força de seus pulmões e pulou na janela do carro, colocando metade do corpo pra dentro do carro.

 

- Desce os dois do carro. – gritou o Policial, sacando seu revólver. – Agora!

 

Os dois desceram sabendo o porquê do surto do cachorro. O policial colocou a mão sobre a maçaneta para abrir a porta do carro, mas foi surpreendido pelo Sargento Dos Santos.

- Policial Matias, o que está acontecendo?

 

- O cachorro pirou no carro desses dois. – justificou Matias. – Devem ter alguma coisa ai.

 

- São dois padres. O que eles vão ter no carro? Seu cachorro deve estar louco.

 

O Policial olhou os irmãos de cima a baixo e se voltou ao Sargento.

 

- Sargento, eu sei que o senhor é religioso e tal, mas se esses dois são padres, pode me chamar de madre Teresa.

 

- Respeito, Matias. 

 

- Então por que estava um na frente e outro atrás? É uber católico?

 

- Como seu superior eu ordeno que leve esse cachorro pra longe daqui.

 

O Policial, com a cara fechada, tentou puxar o cachorro, mas esse não arredava pé. Latindo alto e apontando o porta-luvas com o focinho. Matias olhou para o Sargento, que cedeu:

 

- Tá bom. Padre, eu só vou abrir o porta-luvas para mostrar pra esse cachorro idiota que não tem nada ai.

 

O Sargento abriu a porta, o porta-luvas e puxou o pacote de cocaína.

 

- Que porra é essa? – perguntou o Sargento. O Policial abriu um sorriso malicioso, Igor quase desabou em cima das próprias pernas e Carlos tentou pensar em algo.

 

- É para fazer hóstia. – disse o mais rápido e casual possível. – Amanha é dia de comunhão.

 

- Sargento, se o senhor acreditar nessa historia eu arranco minhas bolas e dou para o cachorro.

 

- Eu sou católico, mas não sou idiota. – disse o Sargento, tirando o revólver do coldre. – Os dois com as mãos no capô do carro, agora.

 

Os irmãos estavam quase chorando quando, de repente, o telefone do Sargento começou a tocar.

 

- Segura os dois que eu vou atender minha esposa e já volto. – ordenou ao policial.

 

O Policial Matias ficou na retaguarda dos irmãos. Uma mão apontando o revólver e a outra segurando a coleira do cachorro, que rosnava raivosamente a dois centímetros da perna de Carlos. Minutos depois, o Sargento voltou.

 

- Posso efetuar a prisão, Sargento? – disse Matias, com um sorriso maldoso no rosto.

 

O Sargento o ignorou, foi direto em Carlos e lhe deu um abraço caloroso.

 

- Perdoe minha descrença, Padre. – disse o Sargento. – Minha esposa acabou de fazer um teste de gravidez e o resultado foi positivo.

 

- Pelo amor de Deus, Sargento. – disse Matias, levantando a voz.

 

- Fica Quieto, Matias. Esse homem fez um milagre.

 

- Como o Senhor sabe? – disse Matias, agressivo. - Eu não quero liberar os dois com esse tijolo de cocaína para, daqui nove meses, o senhor perceber que seu filho é a cara do seu vizinho.

 

- Se ele disse que é hóstia, é hóstia. – disse o Sargento, ignorando Matias e devolvendo o tijolo e os documentos. - Vocês estão liberados.

 

- O Senhor não quer averiguar com um superior?

 

- Eu já conferi com o superior deles. Deus. - o Policial Matias saiu de perto indignado com seu superior.

 

Com as pernas bambas, Carlos e Igor entraram no carro e saíram em disparada. 

 

- Foi você quem fez isso? – perguntou Igor.

 

- Sim, Igor. – ironizou Carlos. – Não sabia? Eu faço milagres agora.

 

Na blitz, o Sargento irradiava alegria. Matias se aproximou novamente do Sargento com um olhar sereno e debochado.

 

- Sargento? Eu preciso de uma ajuda sua.

 

- Pode falar.

 

- Acabei de parar dois caras com cem gramas de maconha.

 

- E daí? Você sabe o que fazer.

 

- É que um deles está vestido de Capitão América e o outro de homem aranha. Posso prender ou o senhor quer conferir com o Homem de Ferro?

 

FIM