Buquê de rosas

Tadeu entrou acelerado na floricultura. Atrás do balcão trabalhava Alfonso. Grisalho, na casa dos seus cinquenta anos e ainda atraente, praticamente um silver fox. Ao notar o cliente, parou de cortar talos de rosas, caminhou até Tadeu e perguntou:

 

- No que posso ajudar, amigo?

 

- Vocês fazem entrega? Vinte e quatro horas?

 

Era um dos dias mais quentes do ano e o aroma das flores misturado com a colônia de Alfonso embrulhava o estomago de Tadeu.

 

- Sim, claro.

 

- Eu quero um buquê de rosas entregue nesse endereço amanhã as sete da manhã. – disse Tadeu, retirando um papel úmido do bolso e entregando para Alfonso.

 

- Anônimo ou com cartão?

 

- Por que eu enviaria anônimo?

 

- Você pode ser um admirador secreto. – respondeu Alfonso. – Ou um perseguidor psicopata.

 

- E você não teria problemas com isso?

 

- Eu só vendo flores.

 

- Pode escrever um cartão dizendo “A noite foi ótima, quero repetir o quanto antes. Ass. Tadeu”.

 

- Tudo bem. É casa ou apartamento?

 

- Apartamento.

 

- Qual o número?

 

- Não sei. – vendo a reação do floricultor, Tadeu sentiu que deveria explicar. – É a primeira vez que eu vou sair com essa garota. Vou busca-la em casa, mas não sei o apartamento. Pensei em mandar as rosas de manhã para que ela acordasse com um agrado meu.

 

- Engenhoso. Sem problemas, me passe o nome dela que o porteiro deve saber o apartamento.

 

Tadeu passou o nome para o homem anotar e procedeu para o caixa.

 

- Só uma dúvida. – disse Tadeu. – Tem algum número que eu possa cancelar o pedido caso eu mude de ideia?

 

- Por que você mudaria de ideia? – disse Alfonso.

 

- Eu estou dizendo no cartão que achei a noite ótima.

 

- Qual o problema disso?

 

- E se a noite não for ótima?

 

- Quanta negatividade. – lamentou Alfonso.

 

- Não é negatividade. É realismo. Pode acontecer muita coisa, ela se entediar, eu derrubar sopa quente no colo dela, eu a atropelar com meu carro.

 

- Se você quiser eu deixo pronto o buquê e uma coroa de flores.

 

- Estou falando sério.

 

- Não vai cancelar nada. Você só está nervoso.

 

- Como você sabe que eu estou nervoso?

 

- Pra começar, está fazendo trinta e sete graus lá fora e você usando terno e gravata. Imagino que seja sua melhor roupa, mas está suando que nem um porco.

 

- É que eu estou querendo sair com essa garota há um tempão. – confessou Tadeu.

 

- Como vocês se conheceram?

 

- Nós fizemos a sétima série juntos. Eu a encontrei na internet, começamos a conversar e eventualmente a chamei para sair.

 

- Obviamente ela aceitou.

 

- Na primeira vez não. Ai eu chamei uma segunda. Ela disse não também. Ai um dia eu fui mais incisivo, disse que era a última vez que a chamava para sair.

 

- Ótimo, às vezes é preciso mostrar atitude.

 

- Ela disse não também.

 

- Só uma pergunta. – disse Alfonso calmamente. – Ela sabe que vocês vão sair hoje?

 

- Sim, depois do primeiro, eu dei mais dois ultimatos, até que ela concordou.

 

- Obstinado. 

 

- Mas agora eu estou realmente nervoso.

 

- Converse com ela da mesma forma que faz na internet.

 

- É que na internet eu trabalho cada palavra como se redigisse uma carta para a rainha da Inglaterra. Ali vai ser ao vivo, não posso fingir que não ouvi algo até pensar em uma resposta.

 

- Posso te dar uma dica?

 

Tadeu mediu o floricultor e demonstrou pouco interesse na dica.

 

- Eu estou no meu quarto casamento, então sei coisa ou outra sobre mulheres.

 

- Talvez suas três primeiras esposas discordem. – disse Tadeu.

 

- Não fale do que não sabe. - ralhou Alfonso. – Minha primeira esposa era minha prima de primeiro grau. Quando você mistura família com família é certeza de fracasso. A segunda esposa é também a atual, que eu casei de novo ano passado. A terceira tudo bem, que eu traí com a minha primeira esposa. Ai minha segunda esposa descobriu e contou para ela, afinal, são irmãs.

 

- Claramente me equivoquei. – ironizou Tadeu.

 

- E você não está em posição de rejeitar conselhos. – alertou Alfonso.

 

- Tudo bem, pode falar.

 

- Decore uma dúzia de perguntas interessantes sobre ela. O que ela gosta, não gosta, um sonho, coisas assim. Toda vez que o assunto morrer você desenterra uma dessas perguntas. Você mata dois patos com uma só paulada. Mostra interesse por ela e mantém a conversa fluindo.

 

- Bom conselho. – disse Tadeu, sem esconder a surpresa – Achei que você ia falar pra eu ser eu mesmo.

 

- De forma alguma. Estou com você há cinco minutos e já sei que se você for você mesmo a noite dessa garota vai ser um desastre.

 

- Obrigado.

 

- E pelo amor de Deus tira esse paletó e gravata. Não tem nada mais desestimulante que alguém suando perto de você.

 

- Obrigado pelos conselhos.

 

Tadeu pagou pelo buquê e quando já estava do lado de fora da floricultura, Alfonso o seguiu e perguntou:

 

- Se por um milagre tudo der certo e você quiser beija-la, como vai fazer?

 

Tadeu hesitou, pensou, começou a suar intensamente e balbuciar palavras incompreensíveis.

 

- Eu... Não... Eu...

 

Alfonso se aproximou, pôs a mão no ombro úmido de Tadeu e disse:

 

- Aqui está meu cartão caso precise cancelar as rosas.

FIM