Casa de Swing

A noite caía fria na capital paulistana. Sob a chuva intermitente, em uma rua de um bairro de alto padrão, um sedan preto estacionou em frente a uma casa enorme com um grande fluxo de pessoas na entrada principal. A música era alta e muros altíssimos bloqueavam qualquer visão externa do que acontecia lá dentro. Uma luz neon rosa em formato de taça de Martini brilhava acima da pequena porta protegida por um único segurança.

 

No carro estão Alberto e Marta, casados há mais de quinze anos, dois filhos, inúmeros sonhos e frustrações compartilhadas em praticamente uma vida juntos. Ele, um homem de quarenta e cinco anos, cabelo bem penteado, barba feita e um distinto traje esportivo fino. Ela, uma mulher de trinta e oito anos, bem maquiada de uma forma sensual sem ser vulgar, usando um justíssimo vestido preto.

 

Marta não perdeu tempo e abriu a porta do carro.

 

- Não, espera. – pediu Alberto.

 

Marta fecha a porta do carro em uma batida estrondosa, que ecoou por toda a rua.

 

- Você não vai fazer isso de novo, Alberto.

 

- Não me pressiona.

 

- Eu não estou te pressionando.

 

- Está sim. – disse Alberto, acuado.

 

Marta fecha os olhos, respira fundo três vezes e responde com a voz calma.

 

- Eu só não quero ficar duas horas estacionada na frente de uma casa de swing...

 

- É que... – Alberto tentou interromper.

 

-... De novo – continuou Marta. – Para não entrar e terminar sentada em uma cadeira de plástico comendo aquela pizza borrachuda no boteco do lado de casa.

 

- Eu já disse que podemos ir à outra pizzaria.

 

- Eu quero que a pizzaria se foda, Alberto. – bradou Marta.

 

- Então vamos entrar. – disse Alberto de maneira confiante, mas sem mexer um músculo.

 

- E aí? – Disse Marta, Impaciente.

 

- Você tem certeza que quer entrar?

 

- Quem tem que ter certeza é você. Eu tô no jeito.

 

- Então tá decidido. Vamos entrar. – disse Alberto, novamente confiante, novamente sem mexer um único músculo. Marta espera alguns segundos.

 

- Pelo amor de Deus, Alberto. Ou caga ou sai da moita.

 

- Não coloca o nome de Deus no meio disso. É pecado.

 

- O quê?

 

- Usar o nome de Deus em vão.

 

- Cresce, Alberto. – disse Marta, se afundando no banco do carro em descontento. – É só uma expressão.

 

- É um sacrilégio. – disse Alberto, como se fosse um ancião dando conselhos à sua tribo.

 

- Estamos a beira de participar de uma suruba e você preocupado com sacrilégio?

 

- Sacrilégio é pior do que... – Alberto sente uma repulsa, desvia o olhar e não termina a frase.

 

- Suruba, Alberto. – completou Marta. – Por Jesus Cristo, filho de Deus, espírito santo da luz suprema de Belém, estamos prestes a participar de uma suruba.

 

- Ainda acho sacrilégio pior. – disse Alberto, visivelmente incomodado.

 

- Domingo, a gente pergunta pro Pastor Cleyson.

 

- Para, Marta.

- Ninguém melhor para nos responder.

 

Alberto parou de prestar atenção no que a esposa falava para olhar o movimento na entrada da casa de Swing.

 

- Olha essa gente.

 

- “Oi pastor, na paz do senhor? Temos uma dúvida para tirar com o senhor.”. – debochou Marta.

 

- Presta atenção, Marta. – disse Alberto, em tom dominante. - Olha essa gente.

 

- O que têm elas? – disse Marta, cansada.

 

- Nenhuma dessas mulheres chega aos seus pés.

 

- Agradeço o elogio, mas e daí?

 

- Eu vou sair perdendo.

 

- No quê, Alberto?

 

- Eu teria que me envolver com uma mulher menos atraente do que você.

 

- E qual o problema?

 

- Não é justo. Se eu estou trazendo filet mignon, espero o mesmo em troca.

 

- Você está me comparando com um pedaço de carne?

 

- É só uma metáfora. – disse Alberto, em tom didático.

 

- Aí eu fico com um cara mais bonito que você. Pelo menos saímos empatados como casal.

 

- Eu tenho que me contentar e você recebe um upgrade? Sem chance. Se eu vou ficar com alguém menos atraente, você também vai.

 

- E eu tenho todo esse trabalho pra terminar com alguém pior que você?

 

- É o mais justo. – explicou Alberto.

 

- Justo pra você, que tomou uma ducha, vestiu uma camisa, um blazer e estava pronto em cinco minutos.

 

- Mas, Marta...

 

- “Mas, Marta” é o cacete. Nem fodendo. Eu quero meu upgrade.

 

- Você está sendo egoísta. – disse Alberto, como se falasse com uma criança.

 

- Não é egoísmo. É lógica. Pra ficar com alguém pior que você eu nem saía de casa.

 

- Qual a diferença? – perguntou Alberto.

 

- Pra você eu não preciso me maquiar, pentear, descolorir, esfoliar e, principalmente, depilar. Sem contar que um pijama de flanela e calcinha de vovó já resolvia. Não precisava subir nesse salto, colocar esse vestido apertando meus órgãos e, muito menos, usar essa calcinha enterrada em meu cólon.

 

 - Eu não mereço essa produção? – disse Alberto, ofendido.

 

- A questão não o mérito, Alberto. É a necessidade.

 

- Como assim?

 

- Ninguém bebe tubaína em taça de cristal.

 

- Você está me comparando com tubaína?

 

- É só uma metáfora. – disse Marta, imitando o tom didático de Alberto.

 

O Segurança da casa de Swing se aproxima do carro, dá duas batidas no vidro e sinaliza para que Alberto abra a janela.

 

- Desculpe, mas se os senhores não vão descer, eu vou pedir que liberem a vaga para outros clientes.

 

- E ai, Alberto. Qual vai ser? – disse Marta, vendo Alberto encher o peito, olhar em seus olhos e perguntar.

 

- Vai querer pizza do quê?

 

FIM