cOACH (DES)MOTIVACIONAL

Vladimir cruzava a noite fria de São Paulo em seu palio quando, em um semáforo fechado, dois homens armados, trajando moletons e óculos escuros, irromperam para dentro de seu carro. O homem no banco do passageiro encostou a boca do revólver na costela de Vladimir. O assaltante do banco traseiro falou primeiro:

 

- Faz o que eu mandar e todo mundo sai inteiro.

 

Nem mesmo a presença de dois estranhos armados em seu carro foi suficiente para que Vladimir perdesse a calma. Era um homem treinado para qualquer tipo de situação adversa. Um homem respeitado em seu meio, conhecido por sua habilidade em resolução de conflitos alheios, moldado a ferro e fogo por diversos cursos online de melhoria pessoal. Um digníssimo Coach Motivacional.

 

- É para eu ir a algum lugar? – disse Vladimir, após dirigir sem rumo por quinze minutos.

 

- Eu estou pensando. – disse o homem no banco traseiro.

 

- Eu falei pra gente planejar antes. – disse o homem ao lado de Vladimir.

 

- Cala boca. – ordenou o colega.

 

O clima esquentou. Vladimir se comportava como uma criança que vê os pais brigando. Sentia o cheiro forte de suor do homem ao seu lado e olhava pelo retrovisor para o outro homem, que ficava mais nervoso a cada segundo.

 

- Sabe qual o problema? Vocês precisam pensar de maneira objetiva. – disse Vladimir. - Qual o desejo de vocês? O carro ou dinheiro?

 

Os assaltantes se entreolharam, sem saber uma resposta. Quando enfim abriram a boca, disseram, ao mesmo tempo, respostas diferentes.

 

- O carro tem rastreador. – aconselhou Vladimir.

 

- Dinheiro então. – disse o homem no banco traseiro. – Encosta no primeiro posto de gasolina que encontrar.

 

Vladimir assentiu e parou no primeiro posto de gasolina que encontrou. O posto era ideal. Tinha pouco movimento e o caixa eletrônico ficava em uma cabine externa.

 

- Cola com ele que eu guardo o carro. – disse o homem no banco traseiro. Em seguida, mostrou seu revólver para Vladimir. – Se tentar alguma besteira, já sabe.

 

O assaltante entrou com Vladimir na cabine vazia e fechou a porta.

 

- Saco quanto? – perguntou Vladimir.

 

- Tudo.

 

- São mais de seis. Tem limite de setecentos reais.

 

- Faz o que der.

 

- Tudo bem. – disse Vladimir, iniciando o procedimento. – Seu amigo é sempre nervoso assim?

 

- Anda logo. – disse o homem, vendo se alguém os observava.

 

- Achei deselegante o que ele fez. Você levantou uma questão válida. Não pode fazer as coisas sem um planejamento prévio.

 

- Eu entendo o lado dele. – disse o assaltante. – É muita pressão.

 

- Sabe qual o problema? Ele não dá valor para suas ideias. Acha que você é escravo dele.

 

O homem preferiu não responder nada. Vladimir pegou o dinheiro e o entregou para o assaltante.

 

- Pegou quanto? – perguntou o homem no banco traseiro, assim que seu comparsa e Vladimir entraram no carro.

 

- Setecentos. – respondeu o comparsa.

 

- Só isso?

 

- Era o limite da maquina. – respondeu o comparsa no banco dianteiro. – Já é de noite.

 

- É o limite por operação, seu imbecil. – bradou o homem atrás. - Dá pra sacar até dois

mil, mas agora fica ai que eu vou com ele, afinal quero o serviço bem feito.

 

Ao sair do carro novamente, Vladimir lançou um olhar de compaixão ao assaltante que permaneceu no carro e adentrou a cabine na companhia do outro.

 

- Difícil né? – disse Vladimir. – Sei como é lidar com funcionários incompetentes.

 

- Cala a boca e saca essa porra.

 

- Não é comigo que você está bravo. – argumentou Vladimir.

 

- Não estou bravo. – disse o homem. Em seguida, suspirou profundamente. – Mas ele não entende como é difícil planejar essas coisas. Só sabe criticar.

 

- Sabe qual o problema? Ele não te valoriza como líder. – disse Vladimir, olhando diretamente nos óculos escuros do assaltante. – Enquanto isso não acontecer, ele vai ter a mesma postura.

 

O homem fingiu não escutar o conselho de Vladimir e, ao término da operação, voltaram para o carro.

 

- Dá o dinheiro que está com você. – pediu o homem no banco traseiro.

 

- Pra quê? – respondeu seu comparsa.

 

- Para eu guardar junto.

 

- Para guardar junto ou você acha que o imbecil aqui vai perder o dinheiro?

 

- Não seria a primeira vez. – ironizou. – Você precisa parar de questionar minhas ordens.

 

- Desde quando eu tenho que obedecer a suas ordens? – bradou o assaltante no passageiro.

 

Vladimir escutava tudo com atenção, até o momento que julgou apropriado para interromper a discussão entre os dois assaltantes.

 

- Sabe qual o problema? Vocês precisam se comunicar mais e melhor. – disse calmamente. – Sem comunicação não existe evolução.

 

- Eu preciso é de um parceiro que não seja um completo inútil. – bradou o assaltante atrás.

 

O homem no passageiro ficou de joelhos no banco, se virou para seu comparsa, apontou seu revólver para ele e bradou.

 

- Quem é inútil?

 

O assaltante no banco traseiro aproveitou um segundo de descuido do colega, apontou sua própria arma para o rosto do comparsa e respondeu friamente:

 

- É você.

 

- Sabe qual o problema? – interrompeu Vladimir, uma última vez. – Vocês querem resolver as coisas na base da violência. Não é assim que deve ser.

 

Os dois assaltantes se encararam em um momento de extrema tensão, dissipada no segundo seguinte. O primeiro passo foi dado pelo homem no banco da frente. Em um movimento surpresa, descarregou seu revólver no peito do colega, que entre o quinto e sexto tiro recebido, conseguiu efetuar um único disparo certeiro entre os olhos do comparsa, arremessando-o de costas no painel do carro, agora lavado em sangue.

 

Poucos minutos depois, uma procissão de viaturas apareceu no estacionamento do posto de gasolina. Uma ambulância também foi enviada para atender Vladimir, o único sobrevivente do tiroteio.

 

Um dos policiais uniformizados puxou Vladimir e o colocou sentado na ambulância para ser examinado pelos paramédicos. Enquanto o exame ocorria, o policial começou a tirar o depoimento de Vladimir. Momentos após o início do depoimento, o delegado responsável pela ocorrência se aproximou e falou de maneira grosseira ao policial que tirava o depoimento de Vladimir.

 

- Anda logo com isso e depois vai ajudar na cena do crime.

 

- Meio rude ele, não? – perguntou Vladimir, quando o delegado se afastou novamente.

 

O Policial apenas arqueou as sobrancelhas, evitando concordar com a afirmação dita por Vladimir, que não se intimidou e continuou.

 

- Sabe qual o problema?

 

FIM