DIA DE FOLGA - 1/2

“Sextas-feiras não foram feitas para ir ao colégio” dizia Guga aos seus colegas. Geralmente eles o ignoravam e iam à aula mesmo assim, mas nessa sexta em especial decidiram que uma folga faria bem. Na quinta-feira à noite combinaram que iriam se encontrar na rua lateral ao colégio e pegariam um ônibus para a casa de Guga. Ele morava com a mãe, que saía cedo e voltava tarde, deixando o apartamento disponível pela maior parte do dia.

 

O grupo era formado por Guga, Luís, Melissa e Larissa, amigos desde a pré-escola. Conforme combinado, às sete da manhã, os quatro já estavam no lugar marcado.

 

- O que aconteceu? – perguntou Melissa, ao ver um hematoma no olho direito de Luís.

 

- Meu pai descobriu que eu roubei os cigarros que ele fuma escondido da minha mãe. Disse que na próxima vai me enviar para a academia militar.

 

- E mesmo assim você vai matar aula? – indagou Larissa.

 

- Vou. Ele descobre uma a cada cinco cagadas que eu faço, então, pela estatística, tenho mais umas duas de segurança.

 

- Seu pai é um carniceiro. – afirmou Larissa, no momento que o grupo avistou Tripa, parado no ponto de ônibus fazendo movimentos de kung-fu sozinho.

 

- Vocês chamaram o Tripa? – perguntou Melissa, desapontada.

 

Tripa era um rapaz da sala dos garotos. Rapaz, pois era um repetente de vinte anos de idade, com tatuagens e piercings espalhados pelo corpo. Era uma visão encantadora ver seu coturno e gorro preto combinando com o uniforme verde-limão do colégio.

 

- Chamei. Ele é gente boa. – respondeu Guga.

 

- Não gosto dele. – Disse Larissa. - parece um fugitivo fantasiado de estudante.

 

- E aí, lixos? Vamos? – disse tripa, no momento que o grupo chegou ao seu encontro.

 

Não demorou muito para ônibus chegar.

 

- Vocês não deveriam estar na escola? – perguntou o Cobrador, desconfiado.

 

O Cobrador era um homem de meia-idade com a camisa azul do uniforme aberta quase até o umbigo, revelando o peito com cabelo grisalho suado. Guga se postou a frente do grupo.

 

- O meu pai morreu e eles estão indo para casa comigo.

 

O grupo se esforçou para manter o tom fúnebre, uma vez que todos sabiam que o pai de Guga realmente tinha morrido, quinze anos atrás. “Não falei nenhuma mentira. Ele não precisa saber que os dois fatos não tem relação.” Explicou mais tarde.

 

- Meus sentimentos, garoto. – disse o cobrador. – Eu só perguntei mesmo porque não é uma boa que vocês fiquem andando sozinhos por aí.

 

- Por quê? – indagou Luís.

 

- Teve uma fuga de um presídio aqui perto. Mais de duzentos presos fugiram.

 

A informação passou batida pelos garotos que continuaram seu caminho.

 

- Ainda bem que o cobrador não nos deu problemas. – afirmou Tripa. – Senão eu ia ter que acabar com a raça dele. – o grupo ignorou como geralmente faziam com as coisas que ele falava.

 

Subiram para o apartamento passando pelo porteiro, que lia o jornal sem notar a presença dos cinco garotos. A porta de entrada do apartamento estava destrancada. Guga estranhou, mas não deu muita atenção. Era comum que a porta ficasse aberta quando estavam em casa e sua mãe deve ter se esquecido de trancar. Ele precisou forçar a maçaneta, que já estava emperrando há um tempo e não se preocupou em trancar.

 

- Eu vou ver se acho alguma coisa pra gente beber. – disse Guga. – Deve ter alguma garrafa que minha mãe ganhou dos clientes dela.

 

- O que sua mãe faz da vida? – perguntou Tripa.

 

- Garota de programa de luxo. – respondeu Luís.

 

- Corretora de imóveis. – respondeu Guga, ignorando Luís eabrindo as portas dos armários da sala. – Achei. – disse, puxando uma garrafa de Vodka. – Minha mãe não bebe, então depois eu encho com água e coloco de volta.

 

Guga afastou a mesa de centro da sala de estar e os cinco sentaram em um círculo no chão. Tripa deu a ideia e o grupo começou com jogos de beber, virando doses e mais doses de vodka pura. Quando o relógio da sala marcava pouco mais de onze horas e todos já estavam bêbados, a maçaneta da porta de entrada começou a ser girada. O grupo se virou em choque para a porta.

 

- Você não disse que sua mãe não ia vir pra cá? – sussurrou Luís. – Se ela ver a gente aqui vai contar para o meu pai.

 

- Não pode ser minha mãe. De sexta ela faz o fechamento da semana. Não sai do escritório por nada.

 

A maçaneta continuava sendo forçada.

 

- Lembram-se do que o cobrador falou? – sussurrou Larissa. – Mais de duzentos presos fugiram ontem à noite.

 

Todos se olharam em pânico e a porta deu sinal que cederia. Tripa se levantou com determinação e se postou atrás da porta segurando a garrafa de vodka pela boca e fazendo sinal para que todos se calassem.

 

Em um tranco a porta finalmente se abriu, revelando um homem alto vestindo um macacão azul marinho e boné preto que lhe tapava os olhos. No momento que colocou o corpo para dentro do apartamento, o homem recebeu uma garrafada na nuca e caiu desacordado antes que pudesse falar qualquer coisa.

 

- Você o matou? – perguntou Larissa, se aproximando do homem caído.

 

- Acho que não.

 

Luís se aproximou e colocou a palma da mão sobre a boca e nariz do homem. Rapidamente puxou a mão, esfregando-a na roupa.

 

- Que nojo. A respiração dele é úmida, mas está vivo.

 

- Não podemos deixar ele aqui. Ele vai nos matar quando acordar. – disse Melissa. – Vamos chamar a polícia.

 

- Não. – respondeu Luís, de imediato. – Se chamarmos a polícia, eles vão chamar nossos pais.

 

O Homem deu gemidos de dor e ameaçou se levantar. Tripa o nocauteou novamente com a garrafa de vodka.

 

- Podem continuar. – disse Tripa.

 

- Eu acho que vou vomitar. – disse Larissa, indo para o banheiro.

 

- Não vomita na pia. – disse Guga, tentando arrastar o homem para uma cadeira. – Me ajudem aqui.

 

- Que porra você está fazendo? – perguntou Luís. Guga largou o homem.

 

- Eu vou amarrar ele na cadeira com silvertape. – respondeu Guga. – Assim ele não foge nem grita enquanto a gente decide o que fazer.

 

Os três rapazes amarraram o homem de toda forma imaginável. Camadas grossas nos braços, pernas, cintura e boca.

 

- Coloca no olho também?  - perguntou Luís. – Acho melhor que ele não nos veja.

 

- Coloca. – ordenou Melissa. – Mas cuidado com a sobrancelha dele. Dói demais para tirar.

 

- Acho que passamos desse ponto depois das duas garrafadas. – disse Luís.

 

O homem acordou e começou a se espernear. Tripa estava surpreendentemente quieto durante toda a ação. Larissa saiu do banheiro com cara de choro.

 

- Vocês amarraram o moço?

 

- O ladrão? – debochou Luís. O homem começou a se espernear com mais vigor, balançando a cabeça lateralmente. – Sim, amarramos.

 

- E vocês têm um plano ou agora ele é parte da decoração? – perguntou Larissa, nervosa. – Porque se não podemos chamar a polícia, ficamos sem opção.

 

- Eu tenho um plano. – disse Tripa, quebrando o próprio silêncio. Todos olharam para ele. – Vamos mata-lo.

CONTINUA...