DIA DE FOLGA - 2/2

- Você está maluco. – disse Larissa. – Não podemos matar uma pessoa.

 

Tripa não estava brincando. Ele usara todo esse tempo em silêncio analisando a situação e àquele ponto era a única saída que ele havia encontrado.

 

- Não podemos ligar para polícia e, definitivamente, não podemos solta-lo na rua.

 

- Por que não? – perguntou Melissa. –Vamos largar ele na rua e pronto. Ele não chegou a nos ver.

 

- Mas sabe onde eu moro. – afirmou Guga.

 

O homem, que escutava a conversa inteira voltou a se debater na cadeira. Larissa desabou aos prantos em um dos sofás.

 

- E o que a gente faz com o corpo? – perguntou Luís.

 

- Você está considerando mesmo matar o cara? – indagou Guga.

 

- A gente pica. – disse Tripa.

 

- Se não fizermos isso meu pai vai acabar descobrindo. – disse Luís.

 

Larissa continuava chorando copiosamente com a cara enterrada em uma almofada do sofá. Tripa saiu da sala em direção à cozinha.

 

- Você mataria alguém pra não ir à academia militar? – questionou Melissa.

 

- Você não? – retrucou Luís. – Nós somos cinco pessoas, dá tempo de cortar o cara inteiro e se livrar dos pedaços antes que a mãe do Guga chegue.

 

- Três. – interrompeu Melissa. – Eu não vou cortar ninguém e acho que a Larissa também não está em condição.

 

- Eu também não quero cortar ninguém. – disse Guga, enojado.

 

- Se precisar, eu corto sozinho. – disse Tripa, voltando da cozinha com uma faca na mão.

 

- Primeiro que isso é uma faca de pão. – disse Melissa. – Segundo, eu vou ligar para polícia e eles resolvem isso.

 

- Não vai ligar pra ninguém. – disse Tripa, tirando o celular da mão de Melissa. – Não me faz te amarrar na cadeira também.

 

- É fácil pra você falar, Melissa. – disse Luís. – Aquele hippie do seu pai é capaz de te dar um abraço e uma pulseira da amizade por matar aula. O meu me bate quando eu esqueço a tampa do vaso levantada.

 

Larissa se levantou decidida, tentando segurar as lágrimas, pegou sua mochila e foi em direção à porta.

 

- Aonde você vai, Larissa? – perguntou Melissa.

 

- Eu vou embora. Não aguento mais isso.

 

- Espera. – disse Melissa. – Entramos nisso juntos. Vamos pensar em algo.

 

Um silêncio tomou conta da sala. Os cinco amigos esperavam alguém tomar a frente da situação. O ar estava carregado com tensão e álcool. Enfim, Guga quebrou o silêncio.

 

- Vamos trabalhar em hipóteses. Nada decidido. Caso a gente decida matar o cara, como poderíamos ser pegos?

 

- As câmeras do prédio? – questionou Luís.

 

- O prédio só tem uma câmera. Na entrada. – respondeu Guga. – Então, mesmo que saibam que ele entrou no prédio, não vão saber onde ele foi.

 

- Sangue. Olha o tamanho dele. – disse Melissa. – No primeiro corte vai jorrar sangue pra lavar essa sala.

 

- Tem a banheira do banheiro da minha mãe. Corta o pescoço dele e deixa o sangue escorrer pelo ralo.

 

- Pelo amor de Deus. – suplicou Larissa. – Não estamos falando de um bezerro.

 

- Ok, sabemos o que fazer. – disse Guga. – Ainda hipoteticamente, quem o mataria?

 

O grupo se entreolhou, procurando em vão por um voluntário. Na sequência todos olharam para Tripa, que abaixou a cabeça e se manteve em silêncio, ainda segurando a faca de pão. Larissa tripudiou.

 

- Bacana. Pra falar parecem uns psicopatas, mas ninguém tem a coragem de fazer. É bom que vocês decidam logo o que fazer.

 

- Por quê? – perguntou Melissa.

 

- Porque a cada minuto que passa a nossa situação se afasta de legítima defesa e se aproxima de cárcere privado.

 

- Ela tem razão. Além do mais, agora eu lembrei. A tubulação do banheiro da minha mãe está toda entupida. Não vai descer nada.

 

Conforme a sobriedade ia novamente tomando conta de cada um, a tensão bruta predominante no ambiente foi se dissipando. Guga puxou uma cadeira e se sentou ao lado do homem.

 

- Podem ir embora. Eu ligo para a polícia e digo que estava sozinho. Com a minha mãe eu me viro.

 

- A gente fica com você. – disse Melissa. – O único que tem um maníaco como pai é o Luís.

 

- Se vocês ficarem, os seus pais ficarão sabendo, e não vai demorar para que o pai dele descubra também.

 

- É, um telefonema e eu fico sem bunda. – concluiu Luís.

 

- Eu ainda acho que a gente devia matar ele. – disse Tripa.

 

O grupo voltou ao normal, ignorando as coisas que Tripa falava.

 

- E se ele falar pros policiais que tinha mais gente aqui? – questionou Luís.

 

- É a palavra dele contra a minha. Podem ir. Daqui ele não vai sair mesmo.

 

- A gente espera você ligar. – disse Larissa.

 

Guga pegou o telefone e saiu da sala. O Restante do grupo permaneceu na sala com as respectivas mochilas nas costas, ansiosos para sair dali. Minutos depois, Guga voltou.

 

- Estão mandando uma viatura.

 

- Você explicou tudo? – questionou Melissa.

 

- Sim. Agora é melhor vocês irem embora.

 

O grupo se dirigiu à porta em tom de enterro, como se estivessem largando um companheiro de guerra para trás. Antes de sair dando risada com a faca de pão na mão, Tripa foi até o homem e deu mais um tapa em sua cabeça.

 

Pouco tempo depois o telefone de Guga toca no instante em que alguém dá uma batida seca na porta de entrada. Guga atende o celular, colocando-o no alto falante, ao mesmo tempo em que abre a porta, revelando os dois policiais enviados para buscar o ladrão. Ele deixa os policiais entrarem, mas sinaliza para que aguardem ele terminar a ligação.

 

- Oi mãe.

 

- Filho. Já está em casa?

 

- Já, mãe. Aliás, eu não estava muito bem e saí mais cedo.

 

- Não tem problema, filho.

 

Guga abriu um sorriso de orelha a orelha, despercebido pelos policiais, que já estavam soltando as pernas e braços do invasor sem preocupação nenhuma em serem delicados.

 

- Eu só liguei pra saber se o seu João apareceu.

 

- Seu João?

 

- É, o encanador que eu chamei para desentupir meu banheiro. Até deixei a porta para ele entrar.

FIM