EMPATIA

- O que te levou a procurar um terapeuta?

 

Sentado confortavelmente em sua poltrona de couro marrom, com o bloco de notas na mão, Dr. Bonini tentava decifrar o paciente à sua frente. Hélio, o paciente, olhava nos olhos do doutor sem entregar qualquer sentimento. Seu olhar beirava o catatônico.

 

- Eu gostaria de sentir empatia pelas pessoas.

 

- Você não sente?

 

- Nem um pingo.

 

- Sempre foi assim?

 

- Desde criança.

 

- Qual o motivo para mudar agora?

 

- Eu sempre achei a empatia um sentimento bonito.

 

Ainda com o bloco de notas na mão e movimentos ponderados, o Doutor se arrumou na poltrona, arqueando as costas para frente. Pela primeira vez em muito tempo estava interessado em um paciente. A expressão de Hélio não mudara.

 

- Você sente falta de empatia constantemente ou em eventos específicos?

 

- Eventos específicos. Por exemplo, quando estou andando na rua e um homem cheio de sacolas se estatela no chão bem na minha frente. Não sinto a menor dó. Passo como se ele não estivesse ali.

 

- Você pode ajudar o homem mesmo sem sentir empatia por ele. – argumentou o Doutor, rabiscando algumas palavras em seu bloco.

 

- Eu não quero ajudar o homem.

 

- É um bom passo para ser uma pessoa melhor.

 

- Eu não quero ser uma pessoa melhor, apenas sentir empatia. - disse Hélio, para a surpresa do Doutor. – Como uma pessoa normal.

 

Dr. Bonini estava sem palavras. Jogou seu bloco de notas em cima da mesinha central, se postou na beirada da poltrona e recomeçou:

 

- Esses dois fatores caminham lado a lado.

 

- Discordo.

 

- Então para que você quer sentir empatia, se não para ajudar as pessoas que despertam tal sentimento em você?

 

- Eu quero apenas o sentimento. Não vou sair do meu caminho para ajudar alguém que não possui a habilidade de andar e carregar sacolas ao mesmo tempo.

 

- Isso não faz sentido algum.

 

- O senhor agride alguém toda vez que fica nervoso? Não é porque tem um sentimento que precisa agir em resposta.

 

O Doutor ficou em silêncio por um minuto inteiro, tentando formular uma estratégia para entender o que se passava na cabeça de Hélio, que continuava inerte em sua poltrona.

 

- Você se considera uma boa pessoa?

 

- Definitivamente não. – disse Hélio.

 

- Por quê? – era a primeira vez que alguém respondia tal pergunta daquela forma.

 

- Eu não gosto das pessoas.

 

- Você se sente confortável assim?

 

- É o que sou. Tenho o que chamo de uma personalidade atemporal.

 

- O que é isso?

 

- Outro dia eu vi uma mulher ajudando um mendigo na rua. Ele tinha apanhado de um cara na rua.

 

- Uma boa ação. – interrompeu o Doutor.

 

- Foi o que pensei, mas no meio da ajuda a mulher deu o celular para uma amiga tirar uma foto. Provavelmente para postar em uma rede social.

 

- Você acha que essa atitude invalida a boa ação?

 

- Não. Aliás, sim, mas não é esse o ponto.

 

- Qual o ponto? – perguntou o Doutor, enfezado com seu paciente.

 

- Será que essa mulher ajudaria um mendigo há trinta anos? Quando redes sociais não existiam e sua ação não geraria reconhecimento algum.

 

- Qual a diferença? Pelo menos o morador de rua foi ajudado.

 

- A diferença é que ela não é uma pessoa verdadeiramente boa.

 

Nesse ponto o Doutor já havia saído das estratégias acadêmicas e entrado na discussão da mesa de bar. Gesticulava muito e sua voz oscilava, transparecendo suas opiniões a respeito de seu paciente.

 

- É mais do que você fez. Por que a julga se você mesmo não se considera uma boa pessoa? – indagou o Doutor.

 

- Porque eu sou verdadeiro.

 

- É melhor ser um babaca verdadeiro do que um falso samaritano? Por quê?

 

- Meu problema não é com más pessoas. Se o cara quer ser um lixo de ser humano, ótimo. É direito dele, mas não busque glória pessoal postando fotos ajudando mendigos que você nem olharia se não houvesse uma gratificação em troca.

 

- Então, na sua lógica, o homem que agrediu o morador de rua é mais verdadeiro que a mulher que o ajudou?

 

- Sim, ele é uma pessoa que agride mendigos. Uma personalidade que ele abraça. Não discuto que é um péssimo ser humano, mas é o que ele é.

 

- Uma personalidade atemporal?

 

- Sim, ele provavelmente bateria em um mendigo há trinta anos.

 

- Sua teoria, embora nefasta, faz algum sentido, mas não captei a relação com o seu desejo em sentir empatia.

 

- Não tem relação nenhuma. Você mudou o assunto.

 

Com a cara fechada, o Doutor apanhou o bloco de notas da mesinha central e releu algumas de suas anotações.

 

- Voltando ao assunto principal, eu enxergo sua apatia como uma virtude. Não uma virtude universal, mas para você é adequada.

 

- Mas eu me sinto deslocado em relação às outras pessoas.

 

- Você nem gosta das outras pessoas.

 

- Mesmo assim. Eu quero sentir o que elas sentem.

 

Dr. Bonini se levantou, caminhou até a porta e a abriu.

- Não posso te ajudar. Aliás, não quero te ajudar.

 

- Por quê?

 

- Porque você não quer ser tratado, está contente do jeito que é. Você é uma das piores pessoas que eu já conheci na vida e olha que eu atendia dois presídios. Minha vontade de lhe jogar pela janela aumenta cada vez que você abre a boca.  Agora pode sair da minha sala. E não volte mais.

 

- Você está me expulsando? Que merda de terapeuta é você?

 

- Um verdadeiro.

FIM