A Garota nova

Não aguento mais ver a cara dessas pessoas. Sala de aula cheia, primeira semana do último de oito semestres excruciantes. Tempo suficiente para descobrir quem gosto e não gosto e diria que não gosto de aproximadamente noventa e três por cento dessas pessoas. Não conheci todos a fundo, mas uma respirada mais alta em um raio de dois metros já é motivo suficiente para desgostar de alguém.

 

Não espero novidades, quero apenas cumprir meu tempo nessa prisão de ensino quase superior e seguir minha vida sabendo que o tão aguardado diploma, que custou tanto tempo, dinheiro e sanidade mental, mudará minha vida em absolutamente nada. Nem na parede o pendurarei. Mas no final das contas, uma surpresa entra pela porta.

 

O Professor já falava sem parar quando ela entrou. Como sempre, estou sentado ao lado da janela, na última fileira do extremo direito. Ponto estratégico para ver o movimento da rua enquanto a aula corre solta. Confesso que meu interesse no mundo exterior é para ver se acontece alguma batida de carros ou no mínimo um ciclista atropelado, mas dia após dia os motoristas de São Paulo me decepcionavam.

 

A concorrência pela minha atenção já não é acirrada, mas quando ela entrou se tornou um monopólio. Só tenho olhos para ela. Não falo nem espanhol, nem francês, mas a primeira coisa que penso é “Dios Mio”, seguida de inúmeras frases românticas francesas que com certeza seriam menos lisonjeiras em português. Sinto-me em um filme hollywoodiano da década de quarenta, com a atriz brilhando em um close direto ao entrar no ambiente.

 

Uma beleza descomunal, uma escultura, um epítome da raça humana. Se Deus visitasse a terra na forma de uma mulher com a intenção de seduzir o Papa, não alcançaria tal resultado. Morena, olhos escuros, vestida impecavelmente ao estilo executivo e se move como se dançasse balé em câmera lenta. Dois passos fabulosos dados entre a porta e a única cadeira vazia, logo na primeira fileira. O professor tem a petulância de continuar normalmente. Nem ao menos puxa uma salva de palmas. Penso em fazer, mas fico na minha.

 

Nesse ponto eu sou o Coiote e ela o Papa-Léguas. Não no sentido predatório, mas no de criar estratagemas de aproximação. Esse professor vai citar Napoleon Hill por três horas ou vai passar algum trabalho para ser feito em sala? Vou até calçar meu tênis de novo, porque se esse homem passar um trabalho em grupo eu vou correr no meio dessa gente como Moisés e os judeus pelo mar vermelho para colocar essa garota no meu grupo. Mas é a primeira aula dele, a possibilidade de um trabalho em grupo é ínfima.

 

Por uns minutos, me distraio com um colega gripado na minha frente. Ele funga a cada trinta e dois segundos, espirra duas vezes a cada três minutos, e emula um trombone em seu lenço asqueroso a cada cinco minutos e dezessete segundos. Dedico muito tempo a ele, pois preciso de foco e disciplina para odiar ele apropriadamente.

 

Se o professor fizer chamada, eu posso descobrir o suficiente para encontrar o Instagram dela. Nada de esquisito como stalkear ou fazer simpatias, apenas descobrir que tipo de pessoa ela é. Se bem que no Instagram se descobre no máximo o que ela curte e qual a sua afiliação partidária. Será que ela é de esquerda ou direita? Não importa. Se for igual à minha, ótimo. Se não for, mudo todas as minhas crenças, valores e princípios até encontrar uma combinação compatível com a dela.

 

Parece ser bem de vida. Não milionária, mas com a vida no lugar. Também não parece ser metida. Sorriso fácil e uma aura de pessoa boa, gentil, que ajuda o próximo. Talvez isso que chama tanta atenção, alguém que seja um contraste à obscuridade da minha alma. Vou falar com ela depois da aula. Agora penso, caso tudo dê certo, como seria o nosso relacionamento?

 

O começo seria normal. Sensação gostosa do desconhecido, fatos novos sendo revelados. Ela contando que faz trabalho voluntário em três orfanatos diferentes e eu falando da vez que corri bêbado na Avenida Paulista vestido de Padre com um consolo verde fluorescente na mão. Eventualmente ela pediria que eu mudasse alguns aspectos da minha personalidade e eu aceitaria. Estou disposto a me tornar uma pessoa melhor. Não uma boa pessoa, isso daria muito trabalho, apenas melhor do que sou hoje.

 

Após alguns meses, a tensão começaria. Conheceria os amigos dela e pessoas boas costumam ter amigos bons. Gente que não aprecia uma boa piada de humor negro. Ela me pressionaria a acelerar o processo de limpeza da alma e nesse ponto eu ficaria resistente à ideia, achando que perdia minha identidade como ser humano. Mas já estamos juntos há algum tempo, então vamos ficando juntos pela comodidade. De vez em quando, faço um gesto romântico para manter a chama acesa e após dois anos a peço em casamento. Ela aceita, pois tem fé que eu tenho salvação. Em uma cerimonia discreta nos casamos e vamos morar juntos.

 

A tensão cresce. Ela recebe os amigos em casa. Não me oponho, não sou nenhum monstro, mas vou acabar compartilhando uma opinião que ofenderá alguém. Ninguém vai discutir comigo, são pessoas de classe, mas depois que forem embora a porta do inferno se abrirá para cima de mim. Falarei coisas absurdas e ela vai desenterrar eventos que aconteceram vidas atrás. Acalmo-me, pois sei que ela não faz por mal. Quer apenas que eu seja alguém melhor.

 

Um dia saio para trabalhar e passo o dia inteiro pensando nela. Em como ela é tão absurdamente boa para mim e eu não faço um mísero esforço para retribuir. Na volta, compro um buquê de rosas e uma caixa dos seus chocolates preferidos, aqueles belgas que custam mais que uma conta de luz.

 

Chego ao apartamento, silêncio total. Procuro-a no quarto e vejo que seu guarda-roupa está vazio. Não levou nada do que compramos juntos, apenas o que era exclusivamente dela. Até a aliança deixou no balcão da cozinha. Realmente era boa demais para mim.

 

Mas com as rosas atacando minha sinusite e o chocolate derretendo na minha mão, a raiva preenche meu peito até um ponto que parece que vou ter um enfarto. Sucumbo à pressão e do fundo da minha existência grito a plenos pulmões:

 

- FILHA DA PUTA.

 

A sala inteira olha pra mim, ela me olha assustada e até o guitarrista que tocava por uns trocados na rua atropela as próximas notas. Aceito a sugestão do professor e me retiro da sala por hoje. Sem trabalho, sem chamada, sem nada. Passo por ela na saída, seu perfume é doce e intoxicante. Na próxima aula falo com ela sem falta. Mal sabe ela o que ainda vamos viver.

FIM