Lugares Vazios

Um cinema improvisado precariamente em uma sala escura de um prédio semiabandonado. Na tela mal estendida um filme pornográfico dos anos setenta visto por um público de não mais que meia dúzia de almas irreparáveis em busca de algum estímulo visual. As paredes eram de cimento batido pintado toscamente com tinta preta. O chão agarrava a sola dos sapatos que pisavam nele por mais de um segundo. O cheiro de cândida (que não era de cândida) queimava a narina dos presentes.
 

A maioria dos escassos expectadores desfrutava do filme sozinho. Noé, sentado na primeira fileira, era a exceção. Apenas mais um desajustado de nome bíblico. Este dado por uma mãe que, entre maços de cigarro e goles de cachaça, especialmente durante a gravidez, era exageradamente religiosa. 
 

- Já pensou se pudéssemos interagir com as pessoas na tela? – sussurrou Noé, quebrando o silêncio embaraçoso da sala. 
 

- Em filmes como esse?
 

O dono da voz, audível apenas a Noé, era Dino, um dos raros amigos de Noé. 
 

- Em qualquer filme. 
 

- O Pessoal desse filme em especial parece um pouco ocupado para interagir com a gente. 
 

- Seria uma experiência extraordinária. – disse Noé. 
 

- Por quê? 
 

- As pessoas nos filmes são fascinantes. – explicou Noé. 
 

- O que tem de fascinante em um encanador? – divagou Dino. – Pior ainda é a dona de casa sem dinheiro pra pagar pelo conserto. 
 

- Não nesse sentido. 
 

- Ela devia ter pensado nisso antes de contratar o rapaz. – divagou Dino. 
 

- Eu quero dizer como um conceito geral. 
 

- Sexo é bom, mas não paga o aluguel do cara. 
 

- Um conceito no sentido de pessoas excepcionais conversando com você. – completou Noé. 
 

- Tá certo que ele mal mexeu na pia. E não sei o que ele estava fazendo com um martelo ali debaixo. 
 

- Um filme de Hollywood, por exemplo. Os personagens daqueles filmes, qualquer filme, são muito mais interessantes que as pessoas no mundo real, com seus empregos, filhos, cachorros e etc... 
 

- Qualquer pessoa se torna interessante se você condensar a vida inteira dela em um período de duas horas. – argumentou Dino, finalmente prestando atenção nas coisas que Noé dizia.
 

Noé discordava. Ele tentava condensar seus pontos mais interessantes, mas não conseguia preencher dez minutos, contando a abertura e os créditos. Sua façanha mais notável havia ocorrido antes mesmo de seu nascimento. Venceu a derradeira corrida espermatológica e foi concebido literalmente na última gota de virilidade de seu pai. Um homem de idade avançada que, em um último suspiro orgástico, gerou Noé. 
 

Sua mãe, a religiosa, apesar de não querer tal gravidez de jeito nenhum, desistiu da ideia de aborta-lo, pois considerava sua concepção um milagre. Seu pai amaldiçoava o atraso de um dia de sua impotência.
 

- Os caras na tela conversariam exclusivamente com você ou com a sala toda? – questionou Dino. 
 

- Qual a diferença? 
 

- Se acontece com todo mundo é um fenômeno, se for apenas com você, é bem possível que passe como esquizofrênico. – disse Dino. Após alguns segundos, completou. - Doido, para os leigos. 
 

- Prefiro passar por doido. Se fosse com todo mundo, as pessoas iam dar um jeito de estragar, como fazem sempre. O cara ia estar ali só pra mim, para conversar só comigo. 
 

- Eu estou aqui conversando só com você. – argumentou Dino. – Minha presença não é suficiente para satisfazer as necessidades sociais de vossa alteza? 
 

- É diferente. 
 

- Ao mesmo tempo em que não é. – ressaltou Dino. 
 

No fundo da sala, um homem levantou furioso com as seguidas interrupções e marchou determinado até a primeira fileira da sala. Ao chegar de costas para tela olhou bem para a origem dos barulhos, deu as costas e saiu da sala.
 

- As pessoas no mundo real sempre têm um objetivo escuso. – explicou Noé. – Algo que as move e que, querendo ou não, coloca a relação sob uma dinâmica diferente.
 

Mesmo permanecendo ao seu lado, Noé considerava Dino mais um cúmplice validador de seus momentos sórdidos do que propriamente um amigo. Alguém que pudesse ser invocado toda vez que desejasse visitar puteiros, bares de quinta, casas de jogos e, no caso em questão, cinemas pornográficos. Não questionava seus hábitos e entendia suas compulsões. 
 

Noé continuou:
 

- Pode ser que não esperem algo tangível, mas você precisa se comportar de determinada maneira para sobreviver dentro da matilha. – desabafou Noé, amplificando o volume da voz a cada palavra proferida. - Seja divertido, nos entretenha, faça como nós, concorde com nossas opiniões, nossos gostos, nossas vontades, nossos conceitos e, principalmente, os nossos preconceitos. Por isso não tenho amigos próximos.
 

- Isso e sua personalidade. – debochou Dino, para depois continuar. – E por que os personagens do cinema seriam diferentes dos seres humanos comuns?
 

- Mesmo que não fossem. – disse Noé. – Seriam pessoas diferentes toda semana. Pessoas com um prazo de validade de duas horas.
 

- O que você acha que ele te diria, por exemplo? – disse Dino, sorrindo e apontando para o ator que era mostrado na tela. – Depois que ele desocupasse a boca, obviamente.  
 

Antes que pudesse responder o amigo, um dos seguranças do cinema entrou na sala e veio diretamente em Noé, iluminando-o com sua lanterna de luz amarelada, e disse: 
 

- Cara, cala a boca ou sai fora.
 

- Algum dos outros pervertidos se incomodou? – respondeu Noé para a sala toda. 
 

- Eles só querem assistir ao filme em paz. – explicou o segurança, tentando não explodir. 
 

- Se eles quiserem eu conto como termina. – desafiou Noé. – E olha que nunca vi esse filme antes. 
 

- Você vai pra rua agora. – disse o segurança, engrossando a voz e avançando decidido na direção de Noé. 
 

- Está vendo. É isso que eu digo. – gritou Noé para Dino. O segurança recuou. Noé continuou a plenos pulmões. – Até na porra de um cine pornô imundo como esse eu tenho que me comportar do jeito que esse imbecil quer. 
 

- Você está maluco, cara? – perguntou o segurança, inclinando-se para frente. 
 

- Não precisa vir pra cima. – berrou Noé, irritado. – Nós já estamos indo. 
 

O segurança congelou confuso por um momento, deixando o braço que segurava a lanterna cair do lado do corpo. Noé o encarava. Segundos depois, o segurança recuperou o domínio do braço e, receoso, levantou novamente a lanterna, apontando-a para o assento que se encontrava Dino. Noé olhou para o rosto iluminado do amigo. 
 

- Nós quem? – disse o segurança, olhando para o assento iluminado e vazio. 

FIM