Vida de Ernesto - lUIZA

Logo que cheguei para trabalhar, notei um post-it colado na tela de meu computador. Era um recado de Luiza, minha chefa, me convocando para sua sala. Luiza é uma mulher de quarenta e alguns anos, sempre bem vestida e com um olhar que atravessa qualquer pessoa como um raio-x. Assim que entrei, ela pediu que eu me sentasse.

 

- Serei direta com você. – disse ela, olhando em meus olhos. – Algumas pessoas reclamaram de você e a diretoria sugeriu sua demissão, mas como você é um funcionário antigo eu quero ouvir seu lado antes de tomar minha decisão.

 

Fiquei em silêncio esperando que ela começasse, afinal não sabia qual seria a reclamação em questão. Pode ser tanto pelo dia que eu roubei uma caneta da sala de reuniões quanto pelo dia que apertei o alarme de incêndio para sair mais cedo e um estagiário foi pisoteado na escada.

 

- Posso começar? – disse Luiza. Fiz que sim com a cabeça.

 

Ela tirou um bloco de papeis de uma gaveta. As canetas em cima da mesa saltitaram na hora que ela largou o bloco no tampo da mesa.

 

- Eu não tenho tempo nessa vida para esmiuçar todas as reclamações das coisas que você falou, fez ou insinuou, então começarei pelas que chamaram minha atenção.

 

Até consigo lembrar coisas que fiz ou falei, mas o que ela quis dizer com coisas que eu insinuei? Talvez ela soubesse que eu comentei com o diretor comercial que achava a Dona Teresa alegre demais para alguém sóbrio. Acredito que não, ela foi demitida antes da contratação da Luiza.

 

- Primeiramente, mês passado você demitiu sua estagiaria por um motivo banal, correto?

 

- Correto em relação à demissão, mas o motivo não era banal.

 

- Então. – disse ela, pegando o papel e lendo pausadamente. – Demitir alguém, usando suas palavras, “porque ela chupava balas em um volume muito alto” é um bom motivo para uma demissão?

 

- Eu não conseguia trabalhar enquanto as balas dela não acabavam. Eu nem gosto de mentos e pedia uns só para acabar mais rápido.

 

- Era tão alto assim?

 

- Parecia um aspirador que sugou uma pilha. Sem tirar nem pôr.

 

- Por que apenas não proibiu que ela chupasse balas no escritório?

 

- Eu não quis me indispor com ela. E não irritava só a mim, a Ritinha também reclamava.

 

- Bem lembrado. – disse Luiza, folheando os papeis. – Eu tenho aqui uma reclamação que a Rita fez após lhe contar que engravidou. É verdade que você perguntou se ela ficaria com o bebê?

 

- Eu não entendo como isso é motivo para uma reclamação.

 

- Então é verdade? – disse ela, horrorizada.

 

- Sim, mas existe um contexto por trás da pergunta. – tentei explicar. - A Ritinha é uma garota nova e ela mesma contou que o bebê não foi planejado.

 

- Certo, mas e dai?

 

- Eu queria saber se ela estava contente com a gravidez.

 

- Certo, mas o que perguntar, em essência, se ela abortaria tem a ver com isso?

 

- Eu não estava falando especificamente em aborto. Ela pode dar pra adoção, deixar na frente do corpo de bombeiros, um banco no parque. São inúmeras opções.

 

- Mesmo assim, nenhuma mulher no mundo diria abertamente que não vai ficar com a criança.

 

- Eu sei que não. Por Deus, não esperava que ela dissesse isso, mas se ela respondesse um “sim” desanimado eu saberia que não está muito contente. Agora, se ela ficasse ultrajada seria um bom sinal, principalmente para a criança.

 

- Acredito que ela estava contente, vide a reclamação.

 

- Agora eu sei.

 

- Acho que não preciso ler mais nenhuma reclamação. Minha decisão está tomada.

 

- Luiza, antes de tudo, eu acho que demissão é um tanto radical. – tentei me justificar. – Eu nunca falto ou me atraso, sempre entrego meus projetos dentro do prazo, não pareço uma betoneira chupando bala e acima de tudo, não perco meu tempo fazendo reclamações dos meus colegas e olha que tenho algumas.

 

- Quais, por exemplo?

 

- O Mauricio me interrompe umas dez vezes por dia, todo orgulhoso, para mostrar vídeos daquele filho esquisito dele dando os primeiros passos.

 

- O que sofreu o acidente de carro?

 

- Esse mesmo.

 

- Eu concordo com tudo isso. Tecnicamente, você é um ótimo profissional.

 

- Então eu posso ficar com o meu emprego?

 

- Com uma condição. – disse ela, empurrando o bloco de reclamações para o lado.

 

- Faço qualquer coisa. – afirmei.

 

Escutei atentamente. Seria perfeitamente capaz de fazer qualquer coisa para manter meu emprego. Ela continuou:

 

- Eu preciso que você seja mais aberto, menos individualista, mais gentil, cordial, simpático. Em suma, preciso que você seja uma pessoa melhor. Pode fazer isso?

 

Já estava mesmo na hora de arrumar outro emprego.

 

FIM