O Monge

Sergio era impulsivo e pouco conformado com as explicações que a vida lhe fornecia sobre sua origem espiritual. Estudou filosofia, sociologia e se consultou com diversos especialistas de todas as áreas possíveis, mas ninguém foi capaz de sanar suas dúvidas. Ele então fez uma lista de religiões que pudessem lhe dar uma visão transcendental do universo, mas nenhum dos líderes religiosos lhe ajudou. Uns gritavam muito e falavam pouco, outros tinham olhos apenas para o dinheiro que Sergio poderia doar. A maioria estava mais perdida do que ele. 

 

Sua sorte começou a mudar no dia que ouviu a história do Monge budista brasileiro chamado Sheeh Kooh, que havia peregrinado para um dos pontos mais altos do monte Everest. Segundo a lenda, o monge, almejando alcançar o nirvana, se isolou em uma área remota e perigosa da montanha e passava seus dias jejuando e meditando. Aquele seria o homem mais indicado a responder suas perguntas.

 

Sergio passou um ano se preparando para tal jornada. Fez cursos de escalada e sobrevivência e vendeu tudo que tinha para arcar com os custos da viagem. Quando o dia da viagem chegou, seu foco era inabalável.

 

O caminho até a base do Everest não era difícil, um avião para a Ásia e quando em terra, um ônibus que o deixou no pé da montanha titânica. No dia seguinte à sua chegada, começou a escalada. Seguiu seu mapa à risca e teve a ajuda do clima, que não dificultou muito a sua subida. Um bom presságio. Após alguns dias, chegou ao local indicado.

 

O frio era torturante, mas era a cena mais linda que ele havia visto na vida. Um pequeno vale branco de neve com uma modesta tenda montada. Um feixe de luz solar escapava pelas nuvens de forma divinamente estratégica, iluminando Sheeh Kooh, o monge que, trajando apenas um fino hábito bege, meditava serenamente em cima da neve.

 

- Oh grande Monge do alto da montanha! – disse Sergio, se postando de cócoras em frente ao monge. – Eu venho para que o senhor me ensine os segredos da vida.

 

O Monge, com os olhos fechados, respirou fundo.

 

- CA-CE-TE. – bradou o Monge, enfim abrindo os olhos. – Nem aqui eu tenho paz.

 

- Oh grande Monge do alto da montanha. – disse Sergio, com a voz trêmula. – Viajei por grandes distancias apenas para lhe encontrar.

 

- Antes de entender o motivo da sua presença, explica que história é essa de “grande monge do alto da montanha”? – disse o Monge, com a voz serena. – Se você me encontrasse em um forró arrasta pé ia me chamar de “grande monge do forró arrasta pé”?

 

- Eu quis ser respeitoso.

 

- Eu tenho nome.

 

- Desculpe-me, Monge Sheeh Kooh. – disse Sergio, caprichando na pronúncia oriental.

 

- Que diabos? Meu nome não é esse.

 

- Como assim? – perguntou Sergio, confuso. – Foi o que me informaram no monastério de Campinas. Sheeh Kooh, de “O iluminado”.

 

- Não. – respondeu o monge, friamente. – É Chico, de “O Francisco”. Com quem você falou no monastério?

 

- Com o Monge Orlando.

 

- O Orlando não é Monge. – disse, rindo. - Ele é o zelador do monastério.

 

- Tem certeza? Ele falava com tanta propriedade.

 

- Ele é católico, casado e alcoólatra. Já conheceu algum monge assim? – explicou Chico. – Ele é extremamente eloquente, mas não é monge. O que mais ele te falou?

 

- Que você veio para esse lugar para atingir o nirvana. Ficar mais próximo de Buda.

 

- Outra bobagem.

 

- Então por que veio pra cá?

 

- Pra ficar longe das pessoas. No monastério eu tinha que atender uma porção de lunáticos em busca da paz interior. Achei que ninguém seria louco de vir atrás de mim aqui.

 

- É o que busco. – explicou-se Sergio. - Viajei muito por isso.

- E quem lhe garante que eu posso te ajudar?

 

- Como assim?

 

- Um zelador que se passa por monge manda você abandonar sua vida para viajar meio mundo, escalar o monte mais perigoso do mundo em busca de um monge e você vai?

 

- Ele foi bem convincente. Não achei que fosse me fazer de trouxa.

 

- Mas fez. – disse Chico. - Além do mais, o que lhe garante que eu sou mais capacitado do que um monge de Carapicuíba? Só porque eu vivo congelando os bagos no meio do Everest? Muito lúdico e pouco lógico.

 

- O senhor passa a impressão de ser um Monge diferenciado. – elogiou Sergio. - Mais inteligente, mais espiritual, mais esclarecido.

 

- Mas não sou. Só no monastério de Campinas tem uns três monges mais capacitados que eu. A única coisa que eu sou mais é antissocial.

 

- Mas e os segredos da vida?

 

- Eu te dou um agora. Não acredite nas coisas que qualquer maluco fala. Não é exatamente um segredo da vida, mas é um conselho útil para você.

 

Sergio caminhava de um lado para o outro em desespero.

 

- Você precisa me ensinar qualquer coisa, Monge. Só para que a viagem não tenha sido em vão.

 

- Tudo bem. – concordou o Monge. – Saiba que “Quando o ser humano está com a razão, Deus é seu advogado”.

 

- Nossa, que bonito. E se enquadra no que eu estou vivendo. – um sorriso se formara no rosto de Sergio. – Quem disse isso? Buda? Gandhi?

 

- Silvio Santos.

 

Sergio desabou de joelhos na neve, inconsolável.

- Eu não acredito. Tudo isso por nada.

 

- Pelo menos você escalou o monte mais alto do mundo. Atrapalhou a minha paz no processo, mas mesmo assim é um feito.

 

Sergio não aceitava as palavras do monge. Olhava para o nada. Enfim, perguntou:

 

- E o que eu faço agora?

 

- Desce o morro.

 

- Eu quis dizer com a minha vida.

 

- Mano, na moral. – pediu o Monge. - Para de pedir conselho pra mim.

 

- Eu vendi todas as minhas coisas pra fazer essa viagem. – o desespero na voz de Sergio ficava cada vez mais evidente.

 

- Vão os anéis, ficam os dedos. – disse o Monge, tentando tranquiliza-lo. – Quer dizer, se a gangrena não te pegar.

 

- Eu não tenho absolutamente nada. – Sergio se levantou, foi em direção ao monge, o segurou pelos braços de forma agressiva e apertou com força. – Alguma solução você precisa me dar. Qualquer coisa.

 

Sergio estava transtornado, seu olhar era homicida, psicopático. Chico estava assustado, mas reuniu todo seu conhecimento religioso em uma única frase:

 

- Já pensou em virar Monge?

 

FIM