Muro de Berlim

Berlim, 1989
 

Teresa morava em Berlim com seu filho há dez anos. Levava uma vida pacata, mas certa noite de novembro foi acordada com uma barulheira em sua garagem. Vestiu seu robe e foi olhar o que estava acontecendo. Ao abrir a porta que dava para a garagem encontrou Arlindo, seu filho de dezoito anos, revirando gavetas e armários. 
 

- Que algazarra é essa? – berrou Teresa. 
 

- O muro está caindo, Mãe. – respondeu Arlindo, eufórico. 
 

- Meu Deus. – exclamou Teresa. – Você prendeu os cachorros?
 

Arlindo parou por uns instantes tentando juntar os pontos e disse: 
 

- Não é o muro de casa. 
 

- Então qual?
 

- O de Berlim. Estão o derrubando.
 

- E o que você tem a ver com isso? 
 

- Todo mundo está indo ajudar. – Teresa apenas o encara. – Eu sei que não sou todo mundo, mas mesmo assim quero ajudar. 
 

- Bacana. 
 

Arlindo conhecia sua mãe tempo suficiente para saber quando não era sincera.
 

- O que foi? – perguntou ele. 
 

- Nada. 
 

- Ok.  – disse Arlindo, voltando a revirar cada canto da garagem. 
 

- Eu só acho engraçado. – continuou Teresa. – Faz um mês que pedi para você pregar um quadro na parede.
 

- Eu não tive tempo. 
 

- E pra fazer bagunça na rua tem tempo? 
 

- Pregar um quadro na parede não vai me colocar na história. 
 

- Ah, me desculpe. – ironizou Tereza, para depois completar. – Mal vejo a hora de ver sua foto nos livros de história. Você me traz uma cópia autografada? 
 

- Você não entendeu. 
 

- Então me explica. – disse Teresa calmamente. Antes que Arlindo conseguisse se explicar, ela completou com a voz irritada. – Pra burra da sua mãe. 
 

- Eu não te chamei de burra. 
 

- Não com palavras. 
 

- De que forma então? 
 

- Nem alemão você é. – disse Teresa, mudando de assunto – Seu orgulho pode ser alemão, mas a certidão é de Piracicaba.  
 

- Eu só quero participar desse momento. – justificou Arlindo. – Ser uma peça importante em um momento histórico. 
 

- Peça importante? Não acha que está se superestimando? – questionou Tereza. – Está achando o quê? Que os Hanzs e Klaus de Berlim estão na frente do muro falando “Espera, que o Arlindo ainda não chegou”.
 

- Eu não preciso ficar conhecido para fazer parte.
 

- E afinal, o que você está procurando nessas gavetas? 
 

- A marreta do pai. Sabe onde está?
 

- Primeiro que aquela marreta não é do seu pai desde que ele foi comprar cigarro. 
 

- Ok. Estou procurando a sua marreta. – respondeu Arlindo entre os dentes. – Onde ela está?
 

- Vendi. 
 

- Por quê? 
 

- Estava enferrujando, ninguém usava. 
 

- E agora?
 

- Você pode usar o martelo que eu uso pra bater bife. 
 

- Eu não posso aparecer lá com um martelo de bater bife. 
 

- Por que não? 
 

- Porque é pequeno. Não vai fazer diferença alguma. 
 

- Filho, você não aguenta colocar o galão de água no filtro. – disse Teresa carinhosamente. – Você pode aparecer com o martelo do Thor que não vai fazer diferença alguma.
 

- Mesmo assim, é vergonhoso. 
 

- Então não vai. 
 

- Mas eu queria participar.  
 

- Eu estou tentando ajudar. – disse Teresa impaciente. – Ou vai com o martelo de bater bife ou vai sem nada.
 

- Tá bom. Cadê o martelo?
 

- Onde ele sempre esteve. Na cozinha. 
Arlindo passa correndo por ela em direção à cozinha. Teresa continuou:

 

- Se quebrar meu martelo, aproveita que o muro vai cair e foge pro outro lado.
 

- Eu não vou quebrar a droga do martelo. – gritou Arlindo irritado. – Posso ir agora?
 

Teresa o encarou friamente e disse:
 

- Está me confundindo com seus amigos?
 

- Me desculpe por gritar. Posso ir agora?
 

- Pode. – disse Teresa. – Assim que você pregar o quadro na parede. 
 

- Esse martelo não serve para pregar quadros. 
 

- Para derrubar um muro de mais de três metros de altura serve? 
 

- Mãe. – exclamou Arlindo, furioso. – Que saco, depois eu prego o quadro na parede. 
 

- Tá bom. Pode ir, Senhor revolucionário. – respondeu Teresa, ofendida. Na sequência, ela completou. – Tomara que o muro caia na sua cabeça. 
 

- Tomara mesmo. – disse Arlindo. – Não se preocupa que eu peço pra alguém trazer seu martelo. 
 

- Não fala uma merda dessas que Deus escuta, seu imbecil.
 

- Mãe... 
 

- Vai lá fazer história com seus amigos. 
 

- Eu preciso ir agora. 
 

- Um dia a mãe não vai mais estar aqui. Ai você vai ver. 
 

Quando Arlindo estava para cruzar a porta, Teresa o chamou novamente:
 

- Filho, eu sei que você é jovem, rebelde e está indo fazer história na rua, mas faz só uma coisa pra Mãe? 
 

- O que foi? – respondeu Arlindo, irritado. 
 

- Leva um casaco. Vai serenar. 

FIM