O bilhete - carla - 2/4

Julia e eu nunca fomos iguais. Muito pelo contrário, nossa personalidade não poderia ser mais diferente. Eu sempre fui extrovertida, que gosta de conversar com todos, festa, bagunça e ela tem o perfil geek, que jamais trocaria uma noite de pizza e filmes de ficção científica por uma balada.

 

Ela trabalhava como maquiadora em uma produtora de filmes, então eu recorria a ela toda vez que tinha um encontro, pois ela era realmente muito boa e toda vez que eu tentava me maquiar sozinha eu começava com traços finos e delicados e quando via já estava fazendo cosplay de coringa.

 

- Desculpa a demora. – disse Julia, quando finalmente apareceu. – Peguei um ônibus diferente. Para nunca mais.

 

- Sem problemas. Só vou sair mais tarde.

 

- O que foi? – disse ela, ao notar que eu a media da cabeça aos pés.

 

- De novo essa camiseta do Yoda?

 

- Qual o problema com o Yoda?

 

- Com o Yoda nenhum, mas precisa usar ela todo santo dia? Eu já vi mendigos que trocam de roupa com maior frequência.  

 

- Você veio aqui pra me julgar ou pra eu te maquiar? – disse ela, abrindo a porta. – Vai pro meu banheiro que eu já estou indo.

 

A casa dela parecia àqueles modelos de revista. Móveis e decorações de dezenas de cores vibrantes. Fui até o banheiro dela e me sentei em um banquinho de frente para o espelho, delineado por umas trinta lâmpadas. Nem todas funcionavam, mas ainda assim parecia que eu estava de frente para o sol.

 

- Qual vai ser hoje? Zumbi ou vampira? – perguntou Julia, ao entrar no banheiro.

 

- Não. Eu quero algo que seja uma mistura de Madonna dos anos noventa e Madre Teresa de Calcutá.

 

- Antes ou depois do Nobel?

 

- Antes. Hoje eu estou comportada.

 

Conversamos um pouco enquanto ela terminava a minha maquiagem. O gostoso de conversar com ela é que ela entra e sai do mundo da lua com uma facilidade impressionante. Uma hora está falando das coisas que não concorda com o presidente e no minuto seguinte, me perguntando se eu acredito que os cachorros tenham pensamentos suicidas.

 

- Pronto. Falta só o batom vermelho que está na minha bolsa. – disse Julia. – Pega lá pra mim enquanto eu vou arrumando essa zona aqui.

 

Fui até o quarto dela e quando abri a bolsa, vi aquele tubinho de papel enrolado. Não era nada lacrado, então dei uma olhada no conteúdo. Um arrepio se apoderou de minha espinha. Um lindo bilhete de um admirador secreto, tímido demais pra conversar pessoalmente. Só não fica tímido quando você liga, sai com ele, cai no seu charme e se entrega, apenas para acordar no dia seguinte com a cabeça lotada de arrependimento e um contato bloqueado no whatsapp.

 

O Bilhete era quase igual ao meu. A única diferença é que esse não estava assinado. Deve dar o mesmo bilhete para tantas mulheres que acabou ficando desleixado. Só de ver a letra dele já fiquei com nojo. Não poderia deixar a mesma coisa acontecer com a Julia. Já estava em vias de esconder o bilhete.

 

- Achou o batom? – disse ela, entrando no quarto e reparando o bilhete na minha mão.

– O que é isso?

 

- É um bilhete para você. – Já não tinha mais como esconder.

 

Ela pegou o bilhete da minha mão, sentou na beirada da cama e o leu com atenção.

 

- Que bonito, Carlinha, mas eu te vejo apenas como amiga.

 

- Não é meu, idiota. Estava na sua mochila.

 

- Jura? Será que eu tenho um admirador secreto? – disse ela debochando, mas radiante por ter sido notada.

 

- Um admirador meio tapado. – disse, tentando abaixar sua excitação. – Ele não assinou e nem deixou telefone. Quer que você o encontre por telepatia.

 

- Deve ter ficado tão encantado pela minha beleza que se esqueceu de assinar. – ela disse, em frente ao espelho, fazendo poses que deveriam ser sensuais, mas acabavam cômicas. – Ele deve ter gostado da minha camiseta do Yoda.

 

- Olha, Julia, um cara que faz isso no ônibus não deve ser normal. Sem assinar ainda deixa tudo mais estranho.

 

- Eu achei romântico. Hollywoodiano até. Um rapaz tímido de bom coração conhece a garota de seus sonhos em um bondinho e, não sabendo como puxar assunto, lhe entrega um bilhete, mas esquece de assinar e passa o filme todo a procurando.

 

- Acorda. Isso é Brasil. Tá mais para psicopata persegue, mata, esquarteja e queima menina que o procurou após um bilhete perturbador no ônibus. E por que um bondinho?

 

- É mais chique que um ônibus lotado.

 

- De qualquer forma não tem o que fazer. Ele não vai conseguir te achar, então deixa que eu fico com isso. – disse, tentando pegar o bilhete da sua mão. Ela se esquivou.

 

- Calma. Têm aplicativos que eu consigo acha-lo. Não custa procurar. – disse ela, pegando o celular.

 

- Não! – gritei. Ela me olhou surpresa.

 

- Eu estou começando a achar que tem alguém com ciúme que eu estou chamando atenção na rua.

 

- Não é isso. Só não quero ter que ir ao IML reconhecer o que sobrou do seu corpo.

 

- Que horror.

 

- O mundo é assim mesmo, Julia. De um sorriso no ônibus para um corpo boiando na represa de Guarapiranga é rapidinho. Promete que você não vai atrás desse cara. Por favor.

 

- Tá bom. Já que é tão importante assim, eu prometo. – ela amassou o papel, enfiou na boca e engoliu.

 

Eu passei meu encontro todo pensando em Julia. Imaginava ela em casa pensando se realmente era o objeto de desejo de alguém ou mais um possível homicídio a ser passado no jornal. Eu gostaria de poder fazer alguma coisa para aliviar esse sentimento de pena da Julia e nojo de mim mesma.

 

- Carla, está tudo bem? – disse André, o rapaz que estava jantando comigo.

 

- Está sim. Por quê?

 

- Você fica olhando para o nada a noite inteira. Eu te pergunto as coisas e você não responde.

 

- Ah, desculpa. É um negócio que está esquentando a minha cabeça, mas não quero te incomodar.

 

- Não é incômodo nenhum. Ainda mais se for algo que eu puder ajudar.

 

Como eu estava precisando desabafar, não esperei que ele oferecesse uma segunda vez. Contei a história inteira, desde o bilhete que eu recebi até o que Julia engoliu. Seu rosto demonstrou incômodo, mas logo passou e ele disse serenamente.  

 

- Pelo menos é algo que eu posso te ajudar.

 

- Como?

 

- Você ainda tem o número dele?

 

- Sim.

 

- Vamos criar um whatsapp falso com a foto de uma garota qualquer que achou um bilhete dele e marcar um encontro com ele. Ele não deve ter entregado esse bilhete só pra você e sua amiga.

 

- Tá bom, mas e depois?

 

- Você deixa comigo e meus irmãos.

 

CONTINUA...