O BILHETE - JÚLIA - 4/4

Eu demorei a entender o que estava acontecendo. A última coisa que esperava naquele dia era uma ligação da Carla pedindo que eu fosse busca-la na delegacia. Ela sempre foi um tanto quanto impetuosa, mas não a esse ponto.

 

Após a liberação entramos em uma lanchonete do outro lado da rua da delegacia para que ela tomasse café e pudesse explicar a história toda. Dentro da lanchonete estávamos nós, a garçonete mal humorada e um grupo de homens mais velhos que já bebiam cachaça àquela hora da manhã.

 

- Não acredito que você fez isso. – disse animada.

 

- Eu não acredito que você ainda está usando a camiseta do Yoda.

 

- Você foi para a cadeia por minha causa.

 

- Esquece. Foi uma besteira.

 

- Besteira nada. – a minha animação era um contraste absoluto ao desanimo dela. – Nunca alguém fez isso por mim.

- Você faria o mesmo. – disse Carla, olhando de rabo de olho para todos os policiais que estavam entrando na lanchonete para tomar seu café.

 

- Faria mesmo. – disse, segurando em sua mão e olhando em seus olhos.

 

- Não vai ser necessário.

 

- É só você pedir que eu pego esse garfo e enfio no olho da garçonete agora. Não precisa nem de um motivo. – disse, empunhando o garfo cheio de farelos de torta.

 

- Acho melhor a gente ir embora. – disse Carla, percebendo que a lanchonete parou para prestar atenção em mim e no meu garfo justiceiro.

 

Larguei meu garfo, pagamos a conta e saímos para procurar um táxi.

 

- Não olha agora, mas foi aquele cara que os meninos bateram. – disse Carla, apontando com o nariz discretamente para a entrada da delegacia.

 

Dois caras saíam da delegacia. Um todo estropiado que eu nunca havia visto e outro mais arrumadinho que não me era estranho.

 

Eles nos notaram e começaram a conversar entre eles. O arrumadinho estava agitado, nos olhava e desviava o olhar sem parar. Parecia se segurar para não vir pra cima da gente. Eles discutiam fervorosamente com o estropiado apontando efusivamente em nossa direção.

 

- Você está vendo isso? – perguntei à Carla.

 

- Estou. Que diabos eles estão fazendo?

 

- Será que ele está mandando o amigo vir brigar com você?

 

- Não. Ele poderia ter feito isso lá dentro.

 

Passava até o batmóvel, mas nenhum táxi à vista.

 

- Às vezes é o amigo que quer tirar satisfações com você. – sugeri.

 

- Não sei.

 

- Se ele vier para cá eu grito.

 

O arrumadinho partiu contrariado em nossa direção, mas no mesmo momento um taxi surgiu virando a rua e parou ao sinal de Carla. O arrumadinho começou a correr em nossa direção.

 

- Espera. – ele gritou, quase sendo atropelado ao atravessar a rua. O amigo estropiado veio se arrastando atrás e ficou olhando da porta da lanchonete.

 

- Vamos embora logo. – gritou Carla, já dentro do táxi.

 

Coloquei a perna dentro do carro e já estava me inclinando para entrar.

- Espera. Por favor. – gritou novamente o rapaz, segurando a porta do táxi e impedindo que eu a fechasse.

 

Isso fez com que todos que estavam na lanchonete se pusessem à porta. Policiais, bêbados e até a garçonete que eu ameacei esfaquear.

 

- Deixa a gente ir embora. - os policiais na porta do bar me deram coragem. – Minha amiga não tem nada pra falar com você.

 

- Quê? Eu não quero falar com a sua amiga. – disse o arrumadinho.

 

- Então o que você quer?

 

- Fui eu quem colocou o bilhete na sua mochila.

 

- O bilhete que eu comi? – perguntei confusa.

 

- Você comeu o bilhete? – ele perguntou mais confuso ainda.

 

- Espera. – disse Carla, me empurrando pra fora do táxi e saindo também. – Eu vi o bilhete, era exatamente igual ao que o seu amigo colocou na minha bolsa. Letra e conteúdo.

 

- É uma longa história. Ele me deu o bilhete para me ajudar. Eu não ia usar, mas quando te vi no ônibus, perdi o rumo e fiz o que dava pra fazer.

 

- Por que não falou com ela como uma pessoa normal? – perguntou Carla.

 

- Eu deveria ter falado, mas sou um pouco tímido. Mais que um pouco.

 

- Tem certeza que isso não é apenas um plano seu em que eu vou terminar boiando na represa de Guarapiranga?

 

- Eu nem sei onde é Guarapiranga.

 

- Não sei. – disse, chocada com a situação.

 

- Não é plano nenhum. Eu me encantei com você. Cheia de personalidade com a camiseta do Yoda.

 

Cruzei os braços na frente do peito para esconder que eu ainda estava usando a mesma camiseta. Ele percebeu, mas foi fofo em não comentar.

 

- Então seu amigo apanhou a toa? – perguntei.

 

- Sim e não. Sim porque não foi ele quem colocou o bilhete e não porque ele já estava merecendo há um tempo. – ele se aproximou de mim. - O que me diz? Quer sair comigo hoje à noite?

 

- Eu não sei o que dizer.

 

- Eu aceito qualquer coisa que não seja “Heil Hitler”.

 

Demorei alguns segundos pensando no que fazer. A multidão aguardava impaciente.

 

- Aceita logo. – gritou a garçonete do bar.

 

- Dá uma chance para o menino. – gritou um dos policiais.

 

- Vai entrar na porra do taxi ou não? – gritou o taxista.

 

- Já te deixo autorizada a me dar uma surra igual à dele caso eu te sacaneie. – disse ele apontando para o amigo que se escorava na entrada do bar com sangue escorrendo do ouvido.

 

Olhei para Carla que com a cabeça me deu um sinal de aprovação.

 

- Tudo bem. Anota meu telefone. – cedi enfim.

 

A multidão do bar explodiu de alegria como se o Brasil tivesse acabado de ganhar uma copa do mundo. Escutei gritos, palmas, assobios e uma sugestão nada romântica de um dos homens que estavam bebendo cachaça.

 

Ele anotou meu número e fomos embora. Dentro do taxi, Carla me fez prometer que não usaria a mesma camiseta do Yoda para o encontro. Mal sabe ela que eu acabei de comprar uma do Chewbacca.

 

FIM