o BILHETE - LEANDRO - 3/4

Estava chegando em casa quando o destino sorriu para mim mais uma vez. Um de meus esquemas mandou mensagem dizendo ter encontrado um bilhete meu. Ela não sabia quando eu havia deixado o bilhete, - Eu também não saberia dizer - mas queria me encontrar naquela mesma noite. Como não sou de fugir da raia, concordei na hora.

 

Fiquei o caminho inteiro tentando me lembrar daquela garota, pois não reconhecia a foto de seu Whatsapp de jeito nenhum. Acho que tenho exagerado um pouco. Talvez devesse parar com esses estratagemas para conquistar mulher. Ou então posso começar a entregar os bilhetes com número de remessa. Gosto mais dessa opção.

 

Cheguei ao local marcado tarde da noite. A rua estava escura e sem movimento. Esperei no número indicado. Alguns carros passavam iluminando meu rosto, mas logo voltava ao breu predominante na rua. Estava quase indo embora quando um carro surgiu do nada. Seus faróis estavam apagados. Ele veio em alta velocidade e brecou de bruscamente na minha frente. Tudo aconteceu muito rápido. Três caras desceram correndo em minha direção. Eu não tive reação e, antes dos socos e pontapés, só pude ver, no breve momento que a porta do passageiro foi aberta, que a motorista era uma mulher.

 

Consegui abrir o olho com muita dificuldade. Meus braços e pernas pareciam pesar cinquenta quilos cada, e o peito doía cada vez que eu tentava respirar fundo. Estava em um quarto de hospital. A primeira coisa que vi foram meus braços escoriados e quando, com dificuldade, levantei o pescoço, pude ver meu reflexiona televisão desligada. Meus olhos estavam roxos e manchados de sangue. Os lábios cortados em dois lugares. Estava bem avariado, mas não irreconhecível.

 

- Como está se sentindo? – disse Theo.

 

Encontrava-me tão focado em minhas feridas que não havia percebido a sua presença.  

- Tão bem quanto posso estar. – disse.

 

- Você se lembra do que aconteceu?

 

- Até os três vindos em minha direção, sim. Depois disso, não.

 

- Bom, eu vou recapitular para você. Eles bateram em você. Com gosto. Como se o destino da humanidade dependesse daquela surra.

 

- Eu entendi. Foi feio. Mas por que eles fizeram aquilo?

 

- Um dos caras é o atual peguete de uma dessas garotas que você deflorou.

 

- Como você sabe?

 

- A polícia pegou os três caras e a garota. O policial esteve aqui.

 

- Pegaram eles como?

 

- Em flagrante. Eles estavam passando pelo bairro e ouviram um grito feminino na rua.

 

- Grito feminino? Sabem de quem? – perguntei.

 

- Provavelmente seu.

 

O médico apareceu pouco tempo depois e me liberou para ir pra casa. Tentei me levantar, mas caí sentado na cama. Meu corpo tremia inteiro.

 

- Pelo menos os desgraçados foram presos. – disse, tentando enxergar algum lado positivo.

 

- Eu gostaria mesmo de falar com você sobre isso. – disse Theo. – Eu acho que você deveria ir lá retirar as acusações.

 

- Você está maluco. Olha o que os caras fizeram comigo. Eu mal consigo parar em pé.

 

- Leandro, você é meu amigo, mas já faz tempo que você está merecendo uma surra dessas.

 

- Por sair com umas meninas e não ligar para elas? Olha bem pra mim.

 

- Não é só isso. Você as trata que nem lixo e ainda se gaba disso. Cedo ou tarde ia acabar acontecendo.

 

- Mesmo assim. Foi três contra um. Não precisava de tudo isso. Eu quero mais é que eles apodreçam na cadeia.

 

- Você que sabe. Mas se você vai voltar para a mesma vida eu só peço que tire meu nome como seu contato de emergência, pois quando isso acontecer de novo, e vai acontecer de novo, eu não quero ser incomodado.

 

Theo saiu do quarto e me deixou sozinho. Eu ainda não sentia firmeza para me postar de pé. Meu corpo inteiro latejava como se fosse um órgão pulsante prestes a explodir. Olhei para minhas mãos, que tremiam freneticamente, olhei para o meu reflexo novamente e comecei a chorar. Lágrimas solitárias escorrendo pela bochecha.

 

Quando parei de chorar, liguei para que Theo me levasse até a delegacia. Não sei o que planejava fazer quando chegasse lá.

 

Logo na entrada já cruzamos com o policial que cuidava do caso.

 

- Bom que o senhor tenha vindo. Precisa assinar o boletim de ocorrência. – disse o policial.

 

- Na verdade eu vim porque queria falar com a garota.

 

- Se for só com garota, beleza. Os rapazes tiveram que ir ao hospital.

 

- O que aconteceu com eles? – perguntei, recordando se na hora da confusão meu inconsciente entrou no jogo e eu consegui revidar.

 

- Eles machucaram a mão de tanto te bater. – disse o Policial. Theo saiu de perto para dar risada.

 

O policial me levou para a sala que a garota se encontrava. Ela estava com a cabeça deitada na mesa. Eu me lembrei dela na hora. Seu nome era Carla. Saímos um tempo atrás e eu fiz o que faço com todas. Não era a arquiteta de um plano maquiavélico para me destruir. Era uma garota comum levada ao extremo. Cara de cansada, rímel borrado e roupa amassada. Ela foi a primeira a quebrar o silêncio.

 

- Eu sei que você não quer ouvir isso, mas eu sinto muito.

 

Entrei na sala e me sentei na cadeira de frente para ela. O ambiente era pesado. Ela estava presa por algo que tinha feito a mim, mas eu não me sentia uma vítima.

 

- Eu só queria saber por quê? Vingança?

 

- Talvez. Prevenção também.

 

- De que?

 

- De outra garota cair na mesma história que eu caí. No caso a minha melhor amiga. Você também deixou um bilhete para ela.

 

- Pelo menos conseguiu o que queria. – disse.

 

- Isso é que é pior. Não consegui. A hora que os meninos começaram a te bater eu entrei em desespero. Comecei a gritar e buzinar.

 

- Então foi você que alertou a polícia?

 

Ela assentiu. Irônico que ela tenha provocado e interrompido a surra.

 

- Eu vou falar com o policial para retirar a queixa. – disse a ela. - Eu já te sacaneei uma vez. Além do mais, você fez isso para proteger sua amiga. Quites? – disse, estendendo a mão.

 

- Quites. – ela disse, apertando minha mão e esboçando um sorriso receoso.

 

Saí da sala e fui com Theo conversar com os policiais. Fiquei um tempinho esperando em uma salinha com caixas de papel que iam até o teto, o que explica o porquê não encontrei resistência dos policiais em arquivar o boletim de ocorrência. O policial pediu que esperássemos alguns minutos e nos deixou sozinhos.

 

- E a garota do ônibus? – perguntei. – Alguma sorte?

 

- Nada. – respondeu Theo. – Vou deixar quieto. Não era pra ser.

 

- Tudo certo. Só mais algumas assinaturas e vocês podem ir. – disse o policial, ao entrar na saleta. – A garota também já foi liberada.

 

- Ela já foi embora?

 

- Acabou de sair. Só estava esperando uma amiga que veio busca-la.

 

CONTINUA...