O Bilhete - Theo - 1/4

Não sou o tipo de cara que costuma ser rejeitado pelas mulheres. Até porque para que a rejeição possa existir, eu precisaria primeiro ter coragem de conversar com alguma mulher. Não sei o que acontece, mas toda vez que estou diante de uma mulher eu fico petrificado. Já não posso contar nos dedos as vezes que eu atravessei um bar, balada ou onde quer que eu esteja, me sentindo imbatível, mas quando chegava perante a garota em questão era como se cada componente do meu corpo adquirisse vida própria. Minhas pernas travavam, meu coração batia como se estivesse tentando fugir do meu peito, minhas mãos tremiam, minha boca ejetava sons primitivos e por fim, minhas glândulas sudoríparas decidiam que aquela era a hora de trabalhar a todo vapor. Resumindo, um inferno.

 

Também não era um bicho do mato. Meu problema era começar uma conversa com uma garota desconhecida, quando já conhecia a garota até conseguia conversar, mas nunca conseguia demonstrar meu interesse de forma clara e objetiva. Eu tentava ser sutil e tinha tanto sucesso que a garota nem percebia o interesse. O que mais me incomoda nesse assunto é quando um expert resolve dar conselhos.

 

- É tão simples. Você que é lerdo.

 

Esse expert em questão é Leandro. Nós somos amigos há um bom tempo, mas a cada minuto que passa eu me questiono o porquê ainda saio para beber com ele. Não que eu não goste dele, mas seu modo de pensar, falar, agir e a sua personalidade no geral, em relação a assuntos do coração são desprezíveis a todos que tenham o mínimo de respeito pelo sexo oposto. Aliás, o termo “assuntos do coração” não pode ser utilizado quando se fala do Leandro, pois o coração é, justamente, o único órgão que ele não usa. 

 

- É simples para você.  – respondi.

 

- Eu posso ajudar.

 

- Eu não preciso da sua ajuda. – eu até precisava, mas não queria.

 

- Por que não?

 

- Porque eu não quero sair que nem um vira-lata no cio. Eu quero algo mais significante. Uma namorada.

 

- O trabalho é o mesmo. – justificou Leandro. - A diferença é que depois de transar com ela você não precisa fingir de morto até que ela pare de te ligar.

 

Eu odeio quando ele faz sendo tão repugnante. Eu conhecia bem seu modus operandi. O clássico príncipe montado em um cavalo branco, atraente, bem humorado e com frases românticas que seriam capazes de conquistar qualquer mulher. Só que quando a princesa cedia a seus desejos, ele montava no cavalinho dele deixando-a com uma má lembrança, um número bloqueado e uma coceira nas partes íntimas.

- O que você tem em mente? – perguntei, tentando não me arrepender de imediato.

 

Ele se aproximou de mim na mesa, tirando tudo que estava entre nós, como se fosse me contar todos os segredos mais sórdidos do universo.

 

- O que você faz quando você curte uma mina na rua?

 

- Eu a encaro e espero.

 

- Espera o quê? Um anjo descer do céu, arrancar a roupa dela e a jogar em cima de você?

 

- Não sei. Talvez ela perceba que eu estou olhando e venha falar comigo. Eu já vi acontecer.

 

- Alguém com a sua cara?

 

- Não é só isso. Eu também fantasio se ela gosta de star wars, se seria uma boa namorada, uma boa esposa, uma boa mãe, como seriam nossos filhos, nossa casa, se ela preferiria passar as férias no campo ou na praia. – eu parei por aí, pois a expressão de decepção ia se tornando mais evidente no rosto de Leandro.

 

- Você não sabe nem o nome da garota e já imagina se ela vai dar a luz de parto normal ou cesárea.

 

- Normal. Somos naturalistas.

 

- Você é doente. E se ela for uma escrota? Uma nazista disfarçada. Você pode estar parado no ponto de ônibus tendo uma ereção sonhando na sua vida com a bisneta do Hitler. Você precisa conhecer a garota antes de começar a sonhar desse jeito.

 

- Se eu conseguisse isso, não estaria tendo essa conversa com você.

 

- Vamos ser criativos. – disse Leandro, como se estivesse prestes a calcular a massa do sol pelo diâmetro da terra. – Se a garota vier conversar com você, você consegue desenrolar?

 

- Acho que sim.

 

- Ok. Eu vou te passar um dos meus truques para pegar mulher.

 

- Você tem truques para pegar mulher?

 

- Lógico. – ele revirou sua mochila, pegou um papel e me entregou. – Entrega um bilhete como esse para uma garota que tenha potencial.

 

Era um bilhete escrito à mão dizendo “Eu te vi hoje, mas sua beleza me intimidou e fiquei acanhado de falar com você no meio das outras pessoas. Seus olhos são a coisa mais linda que já vi em minha vida e adoraria te conhecer.”. No final estava o Nome “Pedro” e um número de telefone que eu desconheço.

 

- É bem romântico, mas quem é Pedro?

 

- Sou eu, ou você acha que eu vou dar meu nome verdadeiro? Mas eu conserto isso. – Ele pegou o papel, rasgou a parte com o nome e telefone e me devolveu o bilhete.

 

- Sim, claro. – me arrependi de ter perguntado. – Mas se você não tem problema em falar com as garotas, para que fazer isso?

 

- Poupa o trabalho de prospecção. É como uma mala direta sexual.

 

- Entendi. – preciso parar de fazer perguntas a ele.

 

- E depois que você desonra a menina?

 

- Bloqueio e passo para a próxima.

 

- Não tem medo de encontrar ela na rua depois?

 

- Não. Ela vai fazer o que?

 

Coloquei o bilhete na minha mochila e logo fomos embora.

 

Esqueci que o bilhete existia até que, dias depois, em um ônibus ela entrou. Uma Deusa de jeans, tênis, cabelo loiro curtinho preso em um pequeno rabo de cavalo empinado e para completar, uma camiseta surrada com o mestre Yoda estampado na frente. Tinha uma beleza modesta, mas que me atingiu de um jeito que nunca imaginei ser possível. Deus do céu, não a deixe ser parente do Hitler.

 

Juntei toda minha coragem para falar com ela e mesmo assim não foi suficiente. Fiquei ali sentando olhando-a pelo reflexo na janela. Estava em pânico, não poderia deixar aquele momento passar. Não acreditei no que estava fazendo, mas quando percebi já estava com o bilhete de Leandro na mão. Lacrimejava de emoção.

 

Agora o problema era colocar o bilhete na bolsa dela. Precisão era fundamental. Não poderia ser brusco a ponto de chamar sua atenção e nem furtivo demais a ponto que alguém achasse que eu estava tentando roubar algo de sua bolsa. Esperei estrategicamente perto da porta de saída, enrolei o bilhete em um canudinho e quando ela passou para descer do ônibus, em um movimento ninja, consegui enfiar o canudinho dentro de uma pequena fresta aberta na lateral de sua bolsa. Missão cumprida. Depois eu percebi que meu ponto já havia passado há uns vinte minutos, mas ali eu só queria contar aquilo para alguém.

 

- Leandro. Eu consegui. – disse ao telefone, com a mão tremendo de excitação. - Usei seu bilhete.

 

- Boa. E você assinou com o seu nome mesmo ou deu algum falso? – a ligação ficou muda por alguns segundos. – O que foi?

 

- Eu me esqueci de assinar o bilhete.

 

CONTINUA...