rEENCARNAÇÃO

Sem saber como, Ariovaldo, um homem de quarenta e dois anos e aparência comum, se encontrou em um corredor enorme. O ambiente era meticulosamente limpo, bem iluminado e, aparentemente, sem fim. A cada dois metros, havia uma porta branca.  

 

- Pode Entrar. – disse uma voz por detrás de uma das portas, que se abriu automaticamente.

 

Ainda um pouco confuso, Ariovaldo passa pela porta e se encanta com que seus olhos veem. Um escritório moderno, móveis de aço escovado, frigobar, sofá de couro branco e uma enorme mesa executiva de vidro, do tipo que Ariovaldo via apenas em novelas. Atrás da mesa, em uma cadeira branca de braços cromados, estava um homem vestindo terno e gravata, tudo na cor branca. O homem fez sinal para Ariovaldo sentasse na cadeira do lado oposto da mesa.

 

- Parabéns, Ariovaldo. – disse o homem. – Você vai reencarnar.

 

- Eu morri? – disse Ariovaldo, em choque.

 

- Ah, desculpe. É o meu primeiro dia. Deixa eu ler o script que me deram.

 

O homem abriu uma gaveta, puxou uma folha e a colocou na sua frente. Em seguida começou a ler o conteúdo do papel para Ariovaldo.

 

- Olá, Ariovaldo. Eu sou o Anjo Clovis. – Ariovaldo reagiu ao nome do Anjo com uma careta. – O que foi?

 

- É sacanagem isso né? Desde quando Clovis é nome de anjo?

 

- Desde quando Ariovaldo é nome de gente? – retrucou o Anjo, de forma agressiva. – Nem todo anjo se chama Matheus ou Gabriel. Você vai ver quando sair a Bíblia Volume dois. - após se acalmar, continuou. – Resumindo, você morreu e agora vai reencarnar. Eu estou aqui para lhe dar um briefing a respeito da sua nova vida.

 

- Briefing?

 

- É. Nós estávamos tendo muitas reclamações das pessoas insatisfeitas com suas vidas, então agora, antes do nascimento, a gente explica como a banda vai tocar. Posso começar?

 

- Você sabe como eu morri?

 

- Sim, claro. – disse Clovis com um sorriso no rosto. – Atropelado por um ônibus. Podemos? – disse, apontando para o papel.

 

Ariovaldo assentiu com a cabeça e Clovis pegou o papel para começar a ler. A cada frase lida ele olhava de forma intensa nos olhos de Ariovaldo, com um sorriso psicótico de orelha a orelha.

 

- Você nascerá em uma família comum, classe média, no que nós chamamos de purgatório financeiro. Não vão ter dinheiro para fazer nada divertido, mas também não chegarão àquele nível de miséria que lhe motive a lutar por algo melhor.

 

- Então eu vou ser pobre a vida inteira?

 

- Basicamente. – disse o anjo. – Continuando, seus pais se chamarão Janete e Anderson.

 

- São bons pais? – perguntou Ariovaldo.

 

- Sim, claro. A Janete nasceu para ser mãe, um encanto. Seu pai também vai ser bom para você. Pelo menos até os seus três meses de idade. É por volta desse período que ele vai abandonar sua mãe.

 

- Ele vai nos abandonar?

 

- Sim, mas não se preocupe. Sua mãe lhe dará uma infinidade de padrastos diferentes. Sem brincadeira, uma quantidade alarmante, inumana. Eu até mostrei para o meu superior achando que era um erro na ficha, mas pode ficar tranquilo que não são todos que vão bater em você.

 

Ariovaldo estava perplexo, se segurando a um último fio de esperança que a qualquer momento uma equipe de televisão ia invadir a sala anunciando a pegadinha.

 

- Você receberá um novo corpo. Será uma criança saudável.

 

- Isso é bom. – refletiu Ariovaldo.

 

- Será bonito o suficiente para não ser chamado de horrível e feio o suficiente para garantir uma adolescência repleta de inseguranças.

 

- Eu vou ser inseguro?

 

- Sim, mas eu credito a isso à quantidade excessiva de pelos no corpo e pelo tamanho do seu pênis.

 

- Vai ser pequeno?

 

- O termo usado é micro pênis. Agora, suas habilidades. Você será considerado uma pessoa com inteligência acima da média.

 

- Ótimo. Até que enfim algo bom.

 

- Concordo. É realmente uma pena que sua falta de motivação somada aos traumas de infância não permitirão que você alcance algo com essa inteligência.

 

- Escuta. E o livre arbítrio?

 

- Não existe. Já está tudo escrito.

 

- E eu vou nascer sabendo dessas coisas que você está me falando?

 

- Não. Você se esquece de tudo quando nasce. Vai crescer com um sentimento enraizado de tristeza e fracasso, mas não saberá o por que.

 

Ariovaldo se afunda na cadeira. Com a voz trêmula ele pergunta ao anjo:

 

- Eu não vou ter chance de ser feliz?

 

- Não, mas é aí que entram as drogas e o álcool.

 

- Eu vou ser nóia?

 

- Não diria nóia. Você será um usuário ativo, mas não naquele ponto que destrói a vida de todos ao seu redor. Só a sua mesmo.

 

- Mas eu não quero usar drogas.

 

- A decisão não é sua. Veja, você terá três casamentos fracassados. O primeiro vai terminar porque ela te traiu com seu irmão, sua segunda esposa vai te largar quando descobrir os favores que você fez ao traficante em troca de pedra.

 

- E o terceiro?

 

- Ah, seu terceiro casamento vai ser lindo. Ela vai te recuperar das drogas, o pai dela vai te arrumar um emprego bom.

 

- E por que termina?

 

- Ela queria filhos. – respondeu o anjo, com pesar.

 

- E eu não vou querer?

 

- Até vai, mas será estéril.

 

Ariovaldo se levanta e começa a caminhar em desespero na sala.

 

- Mas nós podemos adotar. – disse, em tom de súplica.

 

- Você já viu a burocracia que é adotar um filho no Brasil? Além do mais ela vai encontrar um homem capaz de engravida-la. Adivinha quem.

 

Ariovaldo parou de caminhar e disse com pesar.

 

- Meu irmão vai ser responsável pelo termino de dois dos meus casamentos?

 

- Três, se você levar em consideração que ele comprou sua primeira pedra.

 

Ariovaldo se senta novamente, tentando falar de maneira calma com o anjo.

 

- Confesso que não estou animado para nascer. Eu tenho outra opção?

 

- Ir para o Inferno.

 

- É pior que essa vida?

 

- É praticamente a mesma coisa, só que fica tocando o disco da Xuxa sem parar.

 

- Isso não é justo. – disse Ariovaldo em tom conformado.

 

- Tente manter uma atitude positiva. Vai ser uma vida ruim? Sim, mas logo você morre de novo. Passa rápido.

 

- Tem razão. Ainda posso viver uma vida digna. – disse Ariovaldo, bem resolvido com ele mesmo.

 

- Não diria digna, mas pode se divertir.

 

- Exato. Poderei jogar meu futebolzinho.

 

- Isso aí. Pelo menos até o acidente.

 

- Que acidente?  

 

- Não te falei do acidente?

 

FIM