Saudade de você

Tatiane dormia tranquilamente junto de seu noivo quando seu celular tocou. Acordou irritada, pois sabia quem era a única pessoa a ligar esse horário.  
 

- Alô? – atendeu Tatiane. 
 

- Eu estou no bar do Zé e me lembrei de você. – disse uma voz embolada do outro lado da linha. 
 

- Henrique? 
 

- Está tendo uma festa só de pagodes antigos. 
 

- Você de novo? 
 

- E fiquei pensando como o pagode nacional regrediu depois dos anos noventa. 
 

- Pelo amor de Deus, para de me ligar. – implorou Tatiane, irritada. 
 

- Até o Laialaia é diferente. O de hoje em dia é muito mecânico, sem paixão. 
 

- Faz dois anos que nós terminamos. 
 

- A hora que Os Morenos cantaram “Tira a calça jeans, bota o fio dental” eu quase chorei pensando em você. – disse Henrique, se enrolando cada vez mais nas palavras. 
 

- Quem vai chorar sou eu se você não me deixar em paz, seu desgraçado. – bradou Tatiane. 
 

- Lembra como você usava calça jeans? 
 

- Todo mundo usa calça jeans, Henrique. 
 

- Ah, mas o jeito que você usava era diferente. 
 

- Diferente como? – questionou Tatiane. 
 

- Não sei. O jeito que suas coxas roçavam uma na outra deixando a calça toda desgastada no meio das pernas, que sua barriguinha escapava na cintura. Você deitada na cama e eu ajudando a fechar o zíper como se estivesse puxando um bote pra fora da água. 
 

- Você me liga de madrugada para me chamar de gorda? 
 

- Jamais. Eu nunca criticaria seu corpo. Eu adoro o seu corpo. Liguei porque estou com saudades. – disse Henrique, cedendo ao choro. – Você não sente saudades? 
 

- Nem um pouco. 
 

- Mentirosa. – respondeu Henrique, convicto. – Você me ainda me ama e sabe disso. 
 

- A única coisa que eu amo mais que você é ficar longe de você. 
 

- Você não muda mesmo, toda vez que falamos de sentimentos fica na defensiva, me agredindo. Sorte sua que eu perdoo fácil. 
 

- Jesus Cristo, Henrique. Segue sua vida. 
 

- Segue você. 
 

- Eu segui. – disse Tatiane. – Estou noiva e grávida. 
 

- Eu bem suspeitava que isso estivesse acontecendo. O Tonhão da sinuca me disse que você estava barrigudinha. Ai eu disse “Ela sempre foi barrigudinha”, mas ele disse “Mas agora está barrigudinha de um jeito diferente”. 
 

- Vai você e o Tonhão para o inferno. 
 

- Quem é o pai? 
 

- É o Mateus, meu noivo. 
 

- Tem certeza? Se não for, não tem problema. – disse Henrique, compreensivo. – Pai é quem cria. 
 

- Sim, doente mental, eu tenho certeza. 
 

- Fico contente por vocês. Ele faz o que da vida mesmo? Açougueiro?
 

- Ele é médico. 
 

- Ah, é que eu sempre o vejo de branco. Ele está acordado? 
 

- Aonde que você o vê? 
 

- Ás vezes eu passo na frente da sua casa a caminho do trabalho e ele está saindo. 
 

- Minha casa não fica no caminho do seu trabalho. 
 

- Ele está acordado? – insistiu Henrique. 
 

- Pra que diabos você quer saber se ele está acordado? – indagou Tatiane, gritando e sussurrando ao mesmo tempo. 
 

- Eu tenho uma dúvida médica. 
 

- Ele está dormindo. 
 

- Que horas ele acorda? 
 

- Seis e meia. 
 

- Tudo bem então. – disse Henrique. – Eu ligo mais tarde.
 

- Meu Deus, quanta inconveniência. 
 

- Não é inconveniência nenhuma, eu ainda vou estar aqui no pagode. Hoje é open bar de catuaba. Só vou trabalhar às sete horas, afinal o ônibus não vai se dirigir sozinho. 
 

- Não é para você me ligar aqui nunca mais. 
 

- Você está feliz com a sua gravidez? – perguntou Henrique, sincero. 
 

- Claro que estou. 
 

- Feliz de verdade ou feliz do tipo que pula de barriga na piscina? 
 

- Por que você quer saber? 
 

- Você já parou para pensar que ter um filho é a mesma coisa que ter um espermatozoide de estimação? 
 

- Vai se ferrar, Henrique. – gritou Tatiane. 
 

- Com quem você está falando. – perguntou Mateus, sonolento. 
 

Tatiane hesitou em falar para o noivo, que logo entendeu e arrancou o telefone da mão dela. 
 

- Você de novo, Henrique. Não cansa, cara? 
 

- Mateus, dá licença que eu estou falando com a Tatiane. 
 

- Não está mais.  
 

- Você está sendo rude comigo. – alertou Henrique. 
 

- Dane-se. Quer falar com alguém, fala comigo. 
 

- Tudo bem, mas só porque eu tenho uma dúvida médica. Quanto sangue na urina é muito sangue na urina?
 

- Qualquer sangue na urina é muito sangue na urina. 
 

- Eu imaginava. Agora passa pra Tatiane de novo. 
 

- Ela já está dormindo.
 

- Sem problemas. – disse Henrique, respeitoso. – Eu ligo de novo amanhã. 
 

- Por favor, não. 
 

- Dá um beijo nela por mim. 
 

- Não vou dar nada. – vociferou Mateus. – Deixa a gente dormir, você está sendo patético. 
 

Henrique deixou a linha muda por alguns instantes. 
 

- Você tem razão. – disse Henrique. – Só me responde uma última pergunta? Depois não te incomodo mais. É coisa séria. 
 

- O quê? 
 

- Você não acha que o pagode dos anos noventa era muito melhor que hoje em dia? 
 

FIM