SINAIS

Não sou supersticiosa, mas acredito em sinais. No dia seguinte eu teria a apresentação mais importante da minha carreira, que poderia me dar o cargo dos sonhos de muita gente, em uma empresa idolatrada por todos os jovens profissionais no país. Deus sabe quantas unhas roí, fios de cabelo arranquei, lagrimas derramei e horas de terapia enfrentei para suportar meu cargo atual. Esse cargo novo seria isso ao quadrado.

 

Meu plano era chegar ao meu apartamento antes das nove da noite, cedo para meus padrões, comer alguma besteira e assistir episódios de uma série vista tantas vezes que poderia recitar as falas de cor. Finalizaria indo dormir em um horário razoável, mas meu tio decidiu que era um bom dia para morrer e agora passaria a noite presa em uma sala fedida e apertada, com todas as pessoas chatas da minha família em volta de um defunto.

 

Vesti um terninho preto. Não tenho nenhuma roupa preta que não seja social. Até tenho, mas tenho a sensação que uma blusinha com a palavra “Ranço” escrita em lantejoulas prateadas no peito não seria bem aceita em um velório.

 

Fiz o que sempre faço em velórios. Dei meus pêsames aos meus familiares, cumprimentei todo mundo que conhecia e fui para o lado de fora fumar. Minutos depois, chegou um homem bem vestido. Seu rosto era familiar e quase atraente. Ele não entrou assim que chegou, puxou um cigarro do bolso e veio em minha direção.

 

- Tem fogo? – perguntou.

 

Dei meu isqueiro.

 

- Odeio velórios. – ele continuou.

 

- Somos dois. – respondi.

 

Conversamos alguns minutos. Parecia um filme, onde a garota focada apenas na vida profissional conhece, em um local pouco convencional, um homem misterioso e vivido que lhe abre a mente, dando-lhe novas perspectivas sobre a vida.

 

- Quer ver algo interessante? – disse ele, charmoso.

 

Fiz que sim. Levou-me pela mão até o estacionamento. Não disse nada o caminho todo, apenas me olhava com um sorriso tímido no rosto.

 

- Ai ó. – disse ele, apontando.

 

Era um rato preso pelas quatro patas em uma poça de piche. Achei meio estranho, mas comecei a pensar.

 

- Muito interessante, de fato. – falei de forma sincera, entendendo aquilo como uma metáfora inteligente para a sociedade como um todo, presa pelas quatro pernas. Lembrei-me de minha apresentação.

 

Seu sorriso abandonou a característica tímida. Olhou em meus olhos e, com confiança, disse:

 

- Quer conhecer um lugar incrível?

 

Estava acontecendo, uma aventura me esperava. Entrei no carro com ele e fui o caminho todo inebriada, observando as luzes da cidade passando pela janela e pensando em todos os destinos possíveis. Enfim parou o carro na beirada de uma avenida e descemos.

 

- Aonde é? – perguntei.

 

- Aqui. – disse ele, apontando uma tenda com bancos de plástico na frente.

 

- Mas aí só tem uma barraca de lanches.

 

- É do meu amigo Tião.

 

A barraca estava às moscas. Éramos nós, a inexpressiva garota que anotava os pedidos e Tião em pessoa, suando ao lado da chapa, esperando alguém fazer um pedido.

 

- É aqui? – perguntei.

 

- É. Por quê?

 

- Aqui não é incrível. – argumentei.

 

- Talvez eu tenha exagerado um pouco, mas ainda sim é muito bom. – disse o Homem. – O que você esperava?

 

- Sei lá. Um telhado que dê para ver a cidade de uma forma diferente. Um prédio abandonado.

 

- Um prédio abandonado? Em São Paulo?

 

- Qual o problema?

 

- Prédio abandonado em São Paulo já virou ou está prestes a virar boca de fumo.

 

- Você não vai abrir meus olhos para o mundo?

 

- Quê?

 

Faltavam-lhe palavras. Seu olhar era confuso. Ele se virou para o Tião e para a garota buscando alguma resposta, mas eles estavam mais confusos que ele.

 

- Eu só queria comer um x-salada. – disse ele.

 

- Você não é um homem misterioso então?

 

- Misterioso? A gente se conhece. Eu sou jardineiro do seu tio. Quer dizer, era.

 

Tião e a garota já haviam desistido de nos servir e estavam apenas prestando atenção na conversa.

- Você não se lembra de mim? – ele perguntou.

 

- Não.

 

- Está doida? Entra no carro de quem não conhece?

 

- Você que me chamou para conhecer um lugar incrível.

 

Ele parou, respirou, olhou para a garota que anotava os pedidos e depois para Tião. Nossa conversa era uma bela quebra à monotonia daquela barraca.

 

- Você parecia estar com fome. – ele disse.

 

- Então para que você me mostrou aquele rato preso no piche? Não era uma metáfora para a sociedade?

 

- Não. Era um rato preso no piche.

 

- Nada mais? – perguntei, esperançosa.

 

- Nada mais.

 

- Então por que diabos você me mostrou aquilo?

 

- Eu sou jardineiro. Odeio ratos.

 

- Não era sua forma de criticar o mundo capitalista e me dizer que eu sou mais uma rata presa no piche metafórico que é o mundo corporativo?

 

Ele ameaçou responder, parou uns segundos e enfim disse:

 

- Garota, você precisa resolver umas coisas na sua cabeça.

 

- Entendo. Você está dizendo que eu estou projetando, na opinião dos outros, coisas que eu sei que deveria mudar na minha vida? Como, por exemplo, o trabalho que só me dá dores de cabeça.

 

- Não. Estou dizendo que você é maluca e deveria tomar uma providência.

 

- Tem razão. – disse, decidida. - Eu deveria largar o meu emprego.

 

O homem deu uma bufada, virou as costas para mim e gritou.

 

- Tião, manda um X-tudo completo pra mim que eu cansei dessa conversa de doido.

 

A vida é engraçada. Ali mesmo, comendo um x-salada de qualidade duvidosa, eu liguei para avisar meu chefe que não iria mais trabalhar no dia seguinte. Às vezes você reclama por ter que ir ao velório de seu tio, mas encontra alguém que lhe põe sob uma nova perspectiva de vida. Só precisa estar atenta aos sinais.

 

FIM