o sOLDADO bRASILEIRO

Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos despachavam suas tropas para a Europa e para o Pacífico em volumes massivos de soldados. Logo, a superpotência tinha cada vez menos americanos aptos à sua disposição. Para resolver tal escassez, recrutaram estrangeiros residentes nos Estados Unidos. Entre eles, Silva, um bom brasileiro enviado para a base militar da Carolina do Norte.

 

- Você vai limpar esse banheiro inteiro com essa escovinha. – disse o sargento Smith para o recruta Silva, que se achava de joelhos no chão imundo do banheiro.

 

Silva analisou as vinte cabines, os mictórios e os chuveiros, cada um mais encardido que o outro e exclamou:

 

- Você está maluco.

 

- O que foi que você me disse? – disse Smith, chegando perigosamente perto de Silva.

 

- Olha o tamanho desse banheiro, eu nunca vou conseguir limpar isso com essa escovinha.

 

- Isso é problema seu.

 

- Não sou só eu que uso esse banheiro.

 

- Já que você está reclamando tanto. – disse o Sargento, saindo do banheiro e retornando um minuto depois com uma escova de dente na mão. – Use isso para limpar o banheiro.

 

Silva revirou os olhos na cabeça e disse:

 

- Acho que o senhor não está compreendendo.

 

- Se eu dou uma ordem. – disse o sargento, jogando a escova aos pés de Silva. – Eu espero que tal ordem seja cumprida.

 

- Mas assim não dá.

 

- Posso entender que você vai me desobedecer?

 

- Eu adoraria respeitar a sua ordem. - disse Silva, se colocando de pé. – Ninguém gostaria de ver esse banheiro limpo mais do que eu. Você acha que eu gosto de ter ânsia de vomito toda vez que venho mijar? Mas preciso de equipamentos apropriados. Rodos, vassouras, produtos de limpeza.

 

- Não gostaria de dois ajudantes também? – ironizou o Sargento.

 

- Três seria o ideal, mas já ajuda.

 

O Sargento, sem paciência, agarrou o tendão do ombro direito de Silva e o apertou com toda força até que o soldado estivesse ajoelhado novamente e bradou:

 

- Você não terá ninguém. Você é o único que está sendo punido aqui.

 

- Espera ai. – disse Silva, se desvencilhando de Smith. – Eu estou sendo punido? Por quê?

 

- Você foi o único que não completou o circuito físico.

 

- E dai?

 

- Eu não admito incompetência no meu batalhão.

 

Silva começou a dar uma risada irônica e disse:

 

- Não é possível que você não veja sua própria contradição.

 

- Que contradição?

 

- Eu preciso limpar o banheiro porque fui incompetente no circuito físico?

 

- Precisamente.

 

- E aqui estou eu tentando ser competente na limpeza do banheiro, mas o senhor não está colaborando.

 

- A questão não é a qualidade da limpeza, é a sua punição.

 

- Então o senhor não se importa com o banheiro limpo?

 

- Nem um pouco.

 

- Um tanto desnecessária a sua postura, não acha? Eu aqui escovando um banheiro imundo por um dia inteiro porque eu não completei o circuito físico. – disse Silva, se levantando e se afastando dois passos de Smith. – É uma questão de poder? Fetiche? Gosta de dominar os outros? Não quer que eu vista uma roupa de couro e uma mordaça vermelha?

 

- Soldado, eu estou a um passo de ordenar sua prisão.

 

- Primeiro explica a lógica da situação. Aliás, primeiro explica por que é tão importante que eu complete o circuito físico.

 

- Por que deveria? – disse o Sargento, se aproximando como um tigre se aproxima de sua presa. Silva encolheu os ombros e deu mais dois passos para trás. – Eu não tenho que me justificar para um soldado.

 

- Eu só acho desumano. Marchar trinta quilômetros todos os dias com todo o equipamento de combate.

 

- Vocês precisam estar preparados. – berrou o Sargento. Seu olhar penetraria uma parede de aço. – Seu físico precisa ser perfeito.

 

- Pra quê? – questionou Silva. – Nós vamos para a guerra ou para as olimpíadas?

 

O Sargento partiu para cima de Silva, que correu para uma das cabines e fechou a porta.

 

- Soldado, sai dessa cabine agora. – gritava o Sargento com toda força de seus pulmões.

 

- Não vou sair de lugar algum até que o senhor se acalme. – disse Silva, sentado no vaso com as duas pernas segurando a porta.

 

O Sargento dava pancadas cada vez mais fortes na porta, fazendo com que a madeira da porta começasse a rachar. Sem saída, Silva tentou conversar:

 

- Espera um segundo. Se você prometer não me agredir eu saio pra gente conversar.

 

As pancadas cessaram.

 

- Sai. – disse o Sargento. Silva saiu e continuou:

 

- Vamos conversar. Não quero brigar, apenas entender. Por que essa fixação com o meu físico?

 

- Soldado, a sua capacidade de percorrer grandes distancias a pé e aguentar tudo que a mãe natureza lhe envie é a diferença entre a vitória e a derrota nessa guerra.

 

- Não sabia que eu era tão importante assim. – disse Silva, relaxando. – Confesso que, sendo importante assim, acho meio irresponsável da sua parte me colocar pra esfregar banheiro. É inveja?

 

- Seu imbecil, eu quis dizer os soldados em geral. Você vai abaixar e esfregar o banheiro ou devo reportar sua insubordinação?

 

- Vamos chegar a um meio termo. Posso te fazer uma contraproposta? Boa pra nós dois.

 

- Estou ouvindo.

 

- Já passa das três da tarde. Se eu ficar o dia todo me matando de esfregar o chão, amanhã não vou conseguir completar o circuito físico de novo. Além de tudo, eu passei a madrugada em claro jogando cacheta com os gringos.

 

- E eu com isso? – disse o Sargento.

 

- Eu ganhei uns dois mil dólares na cacheta. Me dá o dia de folga e eu coloco quinhentão na sua mão.

 

O Sargento o encarou por alguns segundos sem demonstrar qualquer reação.

 

- Mil ou nada feito. – Silva sorriu.

 

- Tudo bem. Trato feito.

 

Os dois apertaram as mãos.

 

- Mas isso não resolve o problema desse banheiro. – apontou Silva. – Continua um nojo.

 

Silva pegou a escova de dente do chão, foi até o Sargento, passou o braço em volta de seu ombro e disse:

 

- Quer ganhar mais mil?

 

FIM