Término de namoro

- Acho que a gente deveria terminar.

 

A frase de Erica surpreendeu Luciano. Quando ela o chamou para comer um hambúrguer no boteco da esquina, ele tinha certeza que era apenas para conversarem sobre a vida.

 

- Você acha? – disse Luciano. – É uma sugestão ou está terminando comigo?

 

- Estou terminando. – disse Erica, lacrimejando.

 

Os dois ficaram em silêncio por longos segundos. Ele digerindo a notícia, ela sem saber o que falar. Enfim, uma lágrima escorreu pela bochecha de Erica. Luciano notou e perguntou:

 

- Por que você está chorando?

 

- Eu estou triste por terminar com você.

 

- Não vou questionar sua lógica. – disse Luciano. – Só gostaria de saber os motivos.

 

- São várias coisas. – respondeu Erica. 

 

- Que coisas?

 

- Você quer um relatório analítico? – ironizou Erica.

 

- Um feedback seria bom. – esclareceu Luciano. – Essa relação está morta, mas posso melhorar para futuras namoradas.

 

- Eu não estou nem ai para as suas futuras namoradas.

 

- Por que não? – questionou Luciano. – Vai que eu namoro alguém que você gosta. Não gostaria que eu fosse um bom namorado para essa pessoa?

 

- Quem, por exemplo?

 

- Sua irmã vive me dando moral. Se não fosse fiel, já teria pegado. Com você fora do caminho, quem sabe?

 

- Você não é louco de chegar perto da minha irmã.

 

- Estou falando hipoteticamente. – explicou Luciano. – Sua mãe também. Ela é uma mulher bonita, madura, e todo mundo sabe que o casamento dela com o seu pai não vai muito longe. O açougueiro que o diga.

 

- O que tem o açougueiro? – Indagou Erica.

 

- Entende onde estou querendo chegar? – seguiu Luciano – Não gostaria que eu e sua mãe tivéssemos um relacionamento saudável? Que ela fosse feliz?

 

- Não com você. – bradou Erica.

 

- Como você é egoísta. – exclamou Luciano, inconformado. – Esse é o primeiro feedback que eu tenho para te dar.

 

- Eu não quero feedback nenhum. – disse Erica.

 

- Deveria. Temos uma oportunidade única em nossas mãos, Erica.

 

- Que oportunidade?

 

- Que outra situação alguém seria cem por cento honesto com você, sem segundas intenções? – explicou Luciano. – Você não quer mais dormir comigo, não quer ser minha amiga, não quer olhar para a minha cara. Pode ser honesta comigo sem ressentimentos adicionais.

 

- Eu ainda quero ser sua amiga.

 

- Mas eu não quero. – disse Luciano. – Já tenho amigas demais.

 

- E se o que for problema pra mim não for problema para a próxima?

 

- Prefiro arriscar. – justificou Luciano. – Além do mais, ainda falando hipoteticamente, você e sua mãe têm personalidades bem similares.

 

- Tudo bem. – concordou Erica. – O que mais me incomoda é a proximidade que você tem com seus pais.

 

Luciano ficou claramente ofendido com a afirmação e logo questionou:

 

- Qual o problema disso?

 

- Vira e mexe você prefere ficar com eles a ficar comigo.

 

- Desculpe por passar tempo com as pessoas que me ensinaram tudo que eu precisava para me tornar um ser humano funcional.

 

- Mas é demais. – explicou Erica. – Você já deixou de dormir comigo pra jogar buraco com eles.

 

- Você por acaso me ensinou a falar? – indagou Luciano, hostil. Seu tom de voz subia a cada frase pronunciada.

 

- Não.

 

- A andar?

 

- Não.

 

- Limpou merda da minha bunda? – gritou ele.

 

- Isso já. – apontou Erica.

 

- Aquilo foi diferente. – disse ele, envergonhado. – Eu estava bêbado.

 

- Quer que eu continue? – perguntou Erica.

 

- Não. – respondeu Luciano. – Já foi suficiente.

 

- Então eu estou indo embora.

 

- Espera. – disse Luciano, segurando gentilmente a mão de Erica.

 

- O que foi agora? – disse ela, impaciente.

 

- Eu quero uma carta de recomendação.

 

- Uma o quê?

 

- Carta de recomendação. – explicou Luciano – Eu perdi três anos nessa relação, não vou voltar para o mercado especulando a torto e a direito.

 

- E você vai sair entregando esse papel para as meninas por ai?

 

- Se você quiser deixar um número de telefone também. – disse Luciano.

 

- Claro, pra qualquer peguete sua me ligar. – exclamou Erica.

 

- Você pode fazer um post no facebook também.

 

- Dizendo o quê?

 

- Que você não tem nada que me desabone como namorado. – explicou Luciano. – Que você terminou comigo porque vem de um lar disfuncional e não suporta me ver feliz com a minha família.

 

- Tchau, Luciano.

 

- Vai fazer a carta ou não?

 

Erica virou as costas para e já estava quase fora do boteco quando Luciano a chamou novamente:

 

- Espera um pouco.

 

- O que foi agora? – Disse ela, entre os dentes.

 

- Faz mais um favor pra mim?

 

- Fala. – disse Erica, louca para sair dali.

 

Luciano abriu um sorriso amarelo e disse:

 

- Avisa sua mãe que eu estou solteiro.

FIM