o traficante moderno

Vitor nunca havia comprado drogas. Desenvolveu o hábito de fumar maconha, mas sempre filava o baseado dos amigos. Não era aproveitador, apenas tinha medo do contato direto com um traficante. Só que a exemplo de todo bom jovem usuário de drogas, ele se viciou. Como não tinha amigos suficientes para filar o entorpecente, Vitor precisou superar seus medos para saciar seu vício. 
 

Em um fórum online, Vitor encontrou o endereço de uma boca no centro de São Paulo. O estabelecimento ficava em um apartamento no quarto andar de um prédio abandonado e sua nota no fórum era de três pedras e meia no quesito segurança e quatro pedras em qualidade.
 

- Tem alguém ai? – disse Vitor, afobado ao bater na porta. 
 

- Pode entrar. – disse uma voz grave do interior do apartamento. Vitor Entrou.
 

A sala de estar cheirava a mofo, com móveis destruídos, embalagens de comida espalhadas por todo lado e no sofá rasgado do fundo da sala, um homem sentado imóvel com uma seringa cravada no pescoço. Vitor não foi capaz de identificar um sinal de vida.
 

- E ai, beleza? – disse o dono da voz grave de maneira animada. – Eu sou o Florindo. No que posso ajudar hoje?
 

Em contraste com o ambiente, Florindo era bem apessoado. Tinha o cabelo bem penteado e  vestia uma calça bege com camisa social florida verde limão. Em suas mãos, uma prancheta transparente.
 

- Eu só queria comprar um pouco de maconha. 
 

- Esplêndido! Qual o seu nome? – perguntou Florindo, logo percebendo o desconforto que a pergunta causou em Vitor. – É para colocar no seu cadastro.
 

- É necessário? – perguntou Vitor. 
 

- Se você quiser participar dos sorteios, sim. 
 

- Não quero. 
 

- Também serve para te atender melhor na próxima vez. São trinta e sete perguntas rápidas. 
 

- Não, obrigado. 
 

- É excelente para criar uma relação sadia de confiança. – declarou Florindo. 
 

- Eu só quero comprar um pouco de maconha. – justificou Vitor. 
 

- E para isso não precisa de uma relação de confiança? 
 

- Acho que não. 
 

- Amigo, você precisa confiar mais no seu traficante do que no seu médico. 
 

- Em que mundo? – perguntou Vitor, indignado. 
 

- O médico estudou muito para chegar ali, fez juramentos, é um membro respeitável da sociedade, tem coisas a perder, entende? Ele não vai te sacanear. E mesmo que sacaneie, você ainda pode processar. 
 

- E você vai me sacanear? – perguntou Vitor, desconfiado. 
 

- Não é isso que eu estou dizendo. – respondeu Florindo. – Mas, por exemplo, se eu te vender cocaína misturada com cimento, o que você faria? Ligaria no PROCON? Viria reclamar pessoalmente? Precisa de confiança.
 

- Eu perceberia. – retrucou Vitor. – Cimento é cinza.
 

- Bicarbonato que seja.  
 

- Então, na sua lógica, você não precisa confiar no médico, pois não existem motivos para desconfiar? – questionou Vitor. 
 

- Exato. – exclamou Florindo. 
 

- Mas a ausência de desconfiança não é a própria confiança? 
 

- Exato. Por isso não precisa confiar nele. 
 

- Então você não precisa confiar justamente porque ele não dá motivos para desconfiar, logo a confiança fica implícita. – concluiu Vitor. 
 

- É o que eu estou tentando te explicar. – disse Florindo. 
 

- Mas e se um médico pede pra mexer nas suas bolas? – questionou Vitor. – É algo que teoricamente ele pode fazer. Você não precisa confiar nele?
 

- É uma questão de bom senso. – explicou Florindo. 
 

- Como assim? 
 

- Você entra na sala do médico com uma dor nas bolas, faz total sentido. – esclareceu Florindo. – Um problema na barriga é meio estranho, mas é uma região próxima, ainda faz algum sentido. Agora, se você entra com dor de garganta e ele pede pra você abaixar as calças, saia correndo. 
 

- Entendi.
 

- Só estou tentando melhorar os meus serviços. Como em qualquer empresa. – explicou Florindo. – Com o que você trabalha? 
 

- Marketing. 
 

- Não tem algumas dicas pra me dar? – disse Florindo. – Sua maconha sairia de graça.
 

- Tudo bem, mas qual o seu objetivo aqui?
 

- Eu quero um lugar mais receptivo. Sem grandes investimentos, afinal é um negócio um pouco instável. 
 

- Por causa da crise?
 

- Sim, da crise. – ironizou Florindo. – E do fato que a qualquer momento pode entrar um marginal ou policial e dar um tiro no meio da minha testa. 
 

- Você já fez alguma mudança? 
 

- Comecei a me vestir melhor. Também mudei meu nome para Florindo, achei mais simpático que Virgulino.
 

- Um bom começo seria limpar o local, colocar uns móveis novos de cores mais suaves também ajudaria. – Explicou Vitor. – Outra coisa que pode ajudar é remover o cadáver com a seringa pendurada no pescoço. 
 

- O Valter? Ele só está cochilando. – explicou Florindo. – Ele faz isso todo dia no intervalo da escola. 
 

- Mesmo assim, não passa uma boa mensagem. 
 

- Eu pensei em colocar um brinquedoteca também. Eu tenho muitas clientes que não vêm porque não tem com quem deixar os filhos. – disse Florindo. – Ai as crianças ficam brincando enquanto as mães se drogam com segurança e responsabilidade. 
 

Vitor concluiu que ali não era o local mais indicado para aplicar suas técnicas de Marketing e tentou desviar o assunto: 
 

- Não era isso que eu tinha em mente. 
 

- Também farei uma campanha para clientes prioritários. Idosos e grávidas principalmente. – disse Florindo, animado com suas próprias ideias. – Desconto para estudantes.
 

- O quê? – disse Vitor, andando de costas em direção à porta. – Acho melhor eu ir embora.
 

- E a sua maconha? – gritou Florindo, enquanto Vitor saía em disparada pela porta. 
 

Florindo se jogou ao lado de Valter, que despertava lentamente. 
 

- Quem era? – perguntou Valter, ainda sonolento. 
 

- Um cliente, mas ainda bem que foi embora. 
 

- Por quê? – perguntou Valter.
 

- Não confiei nele. 
 

FIM