UM AMOR RECICLÁVEL

- Você vai adorar a Laura. - disse Rafael, enquanto subia com Pedro no elevador.

 

Pedro estava empolgado para conhecê-la. Rafael falava da esposa com rara paixão, bonita de se ver. Os dois trabalhavam juntos há tempos e era a primeira vez que Rafael convidava Pedro para jantar em casa.

 

- Vocês são casados? – perguntou Pedro.

 

- Não. Só moramos juntos. – respondeu Rafael, abrindo a porta do apartamento e dizendo com a voz mais sedosa possível. – Amor, chegamos!

 

Laura não era exatamente o que Pedro esperava. Tinha os cabelos negros e lustrosos, um permanente sorriso encantador, corpo irretocável de uma rainha de bateria e olhos azuis como o mar caribenho. Exatamente como Rafael sempre a descrevera.

 

O que Rafael não mencionou é que ela era uma boneca sexual. Não no sentido figurado, era literalmente uma boneca sexual. De última geração com traços idênticos aos de uma mulher real, mas ainda sim uma boneca sexual. Sentada no sofá com o rosto apontado para a televisão ligada. Pedro não sabia como agir.

 

- Eu não acredito. – disse Rafael irritado. – Você não fez o jantar? Eu disse que o Pedro ia vir jantar aqui em casa hoje. Parece que você não me escuta.

 

Mil respostas passaram pela cabeça de Pedro. Doido para sair dali, ele enfim disse:

 

- Não tem problema. Vamos remarcar para outro dia.

 

- De forma alguma. Eu prometi que íamos jantar aqui e vamos jantar aqui. Eu vou lá dentro pedir uma pizza pra gente. – disse Rafael. – Senta ai no sofá com a Laura que eu já volto.

 

Pedro hesitou.

 

- Pode sentar. – disse Rafael, com um sorriso bobo. – Ela não morde.

 

Quando acordou aquela manhã, Pedro imaginou dezenas de eventos incomuns que poderiam ocorrer em seu dia. Desde coisas simples, como ver um famoso no metrô até situações mais improváveis, como um avião comercial despencando do ar para o meio da Avenida Paulista. Assistir Cidade Alerta ao lado de uma boneca sexual não estava entre suas previsões.

 

Sem prestar muita atenção, Pedro assistia à televisão e, de rabo de olho, dava olhadelas seguidas de sorrisos amarelos inexplicáveis para Laura, como se a qualquer momento ela fosse virar o pescoço e flagra-lo olhando o busto de plástico que saltava pelo decote de seu pijama de seda rosa. Ele sentia um perfume forte e doce vindo da boneca.

 

- Pizza pedida. – anunciou Rafael, ao voltar para a sala. – Sobre o que vocês estão conversando?

 

Pedro olhou para ele, para Laura, para ele novamente, sorriu sem graça e disse:

 

- Estamos só vendo televisão.

 

Rafael se sentou na poltrona adjacente ao sofá, de forma que ficasse próximo de sua amada e de frente para o colega.

 

- Ah, ela adora. Fica horas assistindo. Tem dia que eu volto do trabalho e ela está na mesma posição de quando saí de manhã. A conta de luz vem um pouco alta, mas olha bem, tem como brigar com ela?

 

- Não tem né. – disse Pedro, sem graça.

 

Rafael inclinava o corpo para frente e alternava entre segurar a mão inanimada de sua mulher e fazer carinho em sua coxa. Ele estava muito feliz de finalmente mostrar a sua razão de viver para o colega.

 

- Ela é quieta né? – observou Pedro, com um toque imperceptível de ironia. Ele estava extremamente desconfortável com a situação, mas já que estava ali poderia se divertir um pouco.

 

- Ela é um pouco tímida. – explicou Rafael. – Não está acostumada a ter visitas.

 

- Imagino. – agora o objetivo de Pedro era descobrir até onde tinha ido a fantasia de Rafael. – Como vocês se conheceram?

 

- Se eu te contar você não acredita. – respondeu Rafael, abrindo um sorriso devasso. – Foi em uma... Para amor, não tem problema, ele é meu amigo. – disse baixinho para Laura. – Foi em uma feira erótica. Ela fica com vergonha de falar, mas foi amor à primeira vista.

 

- Bacana. Estão juntos há quanto tempo?

 

- Oito meses.

 

Ainda deve estar dentro do prazo da garantia, pensou Pedro.

 

- É verdade, amor. Que relaxado eu fui. – disse Rafael para Laura. – Ela está perguntando se você aceita uma cerveja.

 

- Aceito sim. – respondeu Pedro para Rafael.

 

- Responde pra ela, então pô. – respondeu Rafael, aos risos.

 

- Aceito sim, Laura. – disse Pedro, constrangido. – Se não for muito incômodo.

 

- Você pega pra gente, amor?

 

Rafael pediu com tamanha convicção que, por um segundo, Pedro legitimamente esperou que a boneca fosse levantar e buscar duas cervejas na cozinha. Segundos depois, obviamente nada aconteceu.

 

- Tudo bem, eu pego. Você e essas dores de cabeça convenientes. – disse Rafael, todo brincalhão, levantando e indo para a cozinha.

 

- Preguiçosa você. – sussurrou Pedro, com um sorrisinho debochado.

 

Rafael voltou com duas garrafas de cerveja, entregou uma para Pedro e sentou-se novamente na poltrona para desfrutar a dele.

 

- Ele te chamou do quê? – disse Rafael, para Laura.

 

Ele deve ter ouvido da cozinha, não é possível, pensou Pedro.

 

- Foi só uma brincadeira. – explicou-se Pedro, com um sorriso inocente.

 

- Ah, que bom ver vocês se dando bem.

 

- Realmente. – respondeu Pedro, dando um gole em sua cerveja. – Ela não bebe?

 

- Não. Nunca bebeu.

 

- Religiosa?

 

- Não tem o costume mesmo.

 

Os três ficaram um tempo assistindo o resumo de todos os crimes cometidos nas últimas vinte e quatro horas e, após vinte minutos de silêncio, o interfone tocou anunciando a chegada da pizza.

 

- Vou lá embaixo buscar. – disse Rafael, se levantando em um pulo. – Não demoro.

Em uma janela de cinco minutos, Rafael esperou o elevador, desceu, pagou e pegou a pizza, cumprimentou e falou com o porteiro da noite, esperou o elevador novamente, subiu e entrou em seu apartamento.

 

- O que está acontecendo aqui? – bradou em desespero, jogando as caixas de pizza no chão.

 

Pedro sem camisa, com a calça e cueca arriadas até o tornozelo, montado no sofá em cima de Laura, que por sua vez estava deitada com as pernas de plástico para cima em um ângulo reto e o pijama de seda rosa jogado no chão. Laura continuou inerte olhando para o teto. Pedro olhou para o colega e tentou se justificar:

 

- Foi ela quem me seduziu.

 

FIM