Vida de Ernesto - hugo

Existe um tipo de amigo que, mesmo não tendo mais tanto contato, faria de tudo por você. Que está sempre a uma ligação de largar tudo que está fazendo e vir correndo dar a ajuda necessária, para qualquer que seja o problema. Quem tem, sabe muito bem do que estou falando. E quem não tem, deveria ter. Só pra saber o inferno que é estar envolvido em uma relação tóxica dessas.

O Problema não está na relação em si, mas na reciprocidade que ela exige. Não que esse amigo vá me ligar às três da manhã, pedindo ajuda em algum assunto de vida ou morte. Até porque o, sempre ativado, modo “não perturbe” do meu celular existe para evitar que esse tipo de ligação me atinja.

 

A maior dor de cabeça são as pequenas coisas, que beiram o insignificante, como um filme que deseja lhe indicar, uma lembrança de algum momento que tenham passado juntos ou, como no caso em questão, a festa de aniversário de um ano do seu filho. Eu estou ciente desse laço de amizade que nos amarra pelo pescoço, portanto, vou à festa.

 

A festa é em um Buffet infantil. Eu adoro Buffets infantis, mais pela parte do “Buffet” e menos pela parte do “Infantil”. Comida boa, refrigerante à vontade, videogames antigos e aquelas músicas da década de noventa que ninguém escuta, mas todo mundo conhece. Se tirasse aquelas pestes correndo por todo lado, seria um dos melhores lugares do planeta.

 

Como tudo na vida, é preciso ter uma estratégia para chegar a uma festa infantil. Você pode chegar cedo, antes de todo mundo, quando não tem praticamente ninguém para cumprimentar. O lado negativo disso é o tempo a mais que você ficará na festa esperando a hora de cantar parabéns. Deus me livre sair antes de cantar parabéns. Cuspa no bolo, esfaqueie o garçom ou aperte a moleira do aniversariante, mas não saia antes de cantar parabéns.

 

Você também pode chegar mais tarde, praticamente por último, tendo o cuidado de não chegar tão tarde a ponto de deixar transparecer que aquele era o último lugar que você gostaria de estar, mesmo que seja a mais pura verdade. Escolhi a segunda opção.

 

Cumprimentei alguns convidados parados perto demais da entrada para serem ignorados. No salão avistei um aglomerado de pessoas sentadas lado a lado em uma grande fileira de mesas. Todos conversavam, davam gargalhadas espalhafatosas e se divertiam como se o mundo fosse acabar no próximo “amém” do Papa. Parecia um universo utópico de comerciais de cerveja. Sentei longe dali.

 

No segundo que eu sentei, um ser se destoou do aglomerado de pessoas e veio em minha direção. Era Hugo, um conhecido relativamente antigo. Um cara gentil, simpático, atencioso, entre tantos outros adjetivos positivos. Uma pessoa exemplar.

Que eu odeio com cada fibra de meu corpo.

Ele nunca fez nada de mal para mim ou para alguém que eu conheça, mas ele tem algo em sua natureza que o torna uma pessoa muito odiável. Não o odeio a ponto de desejar seu mal, apenas tenho certa intolerância. Exatamente da mesma maneira que certas pessoas têm intolerância à lactose, mas ao invés de me fazer peidar, ele me dá vontade de puxar meus testículos pra cima da cabeça.

 

- Pô, cara. Nem foi me cumprimentar.  — disse ele, me dando sua mão, sempre úmida.

- Eu nem tinha te visto.  — menti.

Toda vez que eu entro em algum lugar, a primeira coisa que faço é olhar quem está presente, apenas para ver quem eu posso fingir que não vi.

- Como estão as coisas? — disse ele, sentando ao meu lado.

- Está tudo bem. E com você?

Eu sinceramente não me importo, mas infelizmente sou um ser humano bem educado.

- Tudo bem, também.

 

O silêncio toma conta da mesa. Aquele que chega para alertar duas pessoas tentando conversar, que não possuem absolutamente nada em comum. Nesse momento uma das partes, geralmente a mais desconfortável, recorre para três tópicos padrão: Futebol, clima e filhos.

- Você precisa conhecer meu filho.  — disse ele, trazendo a cadeira para perto demais de mim. Dava para escutar sua respiração.

- É verdade.  — respondi, afastando minha cadeira.

- Então vamos marcar.  — disse ele, empolgado.

- Vamos. Eu te ligo.  — não vou ligar, mas gosto de ter o controle da relação.

- Vai ligar mesmo? Porque você sempre fala que vai ligar e nunca liga.

- Vou. Me dá seu número que eu acho que apaguei.

Eu tenho o número dele, mas essa é a maneira que eu mostro, de forma subliminar, que não faço muita questão de manter contato.

- Faz assim, eu te ligo. É melhor assim.  — ele decidiu, já levantando para voltar para seu aglomerado de pessoas.

- Tá bom, você que sabe.  — eu já estava querendo trocar o meu número mesmo. Agora, pelo menos tenho motivo.

No final eu acabo gostando de pessoas como o Hugo, pois eu sei que tenho uma tendência a afastar as pessoas. Quando encontro pessoas como ele que, apesar do meu jeito, vem me cumprimentar e conversar, eu percebo que em relação a esse tipo de pessoa, a realidade é que eu não as afasto o suficiente.

FIM