Vida de Ernesto - vera

Não existe nada de muito interessante no que eu faço de manhã. Acordo bem cedo para ter mais tempo para ficar parado no banho pensando em todas as decisões erradas que tomei na vida. Preparo um café rápido e me arrumo pra sair. Pronto, é agora que começa o problema.

Eu moro em um prédio com seis apartamentos por andar, o que não seria um problema se não fossem as pessoas que habitam esses apartamentos.

Já pronto, observo pelo olho mágico se o corredor está livre e saio. No momento que bato a porta do meu apartamento, escuto outra porta se abrindo. É a Vera, é sempre a Vera. Parece que ela também fica de guarda no olho mágico esperando eu sair.

Uma mulher de cento e trinta e dois anos, residente no apartamento em frente ao meu. Está sempre do mesmo jeito. Chinelo de dedo mostrando o pé que eu penso quando quero que o sexo dure mais tempo, uma calça legging mais justa que o sistema legal da Dinamarca e uma blusa de moletom surrada, exalando um aroma de jornal velho e celibato involuntário.

Nada disso me incomoda. Eu até gosto de ver pessoas que já desistiram de se mostrar apresentáveis para a sociedade. Há certa rebeldia em seu cabelo branco com tons de roxo que eu acho revigorante, mas a Vera tem um problema seríssimo, que me afeta diretamente. Ela gosta de conversar.

Tudo bem se fosse uma velhinha cujos amigos morreram e filhos, netos e afins a esqueceram. Eu até me compadeceria, mas essa mulher tem a vida social mais ativa do que eu jamais tive, tenho ou terei.

- Bom dia, Ernesto.  — disse ela, ao entrar no elevador.

- Bom dia, Vera.

Eu costumava chama-la de Dona Vera, mas recentemente diminuí a gentileza na esperança que ela ficasse revoltada com a minha falta de modos e parasse de falar comigo. Isso não aconteceu.

- Tudo bem? — disse ela.

- Tudo bem e você? — respondi, de maneira automática. Grande erro.

- Estou bem.

Eu não gostaria de ter a mente doentia dessas pessoas. Parece que quando estão presas em uma situação, sentem uma necessidade de conversar com estranhos. Como se a vida não valesse a pena ser vivida, a não ser que você apontasse que hoje à tarde deve chover. Isso também acontece no correio e em filas de banco.

- Só a minha filha que está tendo uns problemas com o marido. Ele é chegado na cangibrina.

Sim, muitas pessoas se contentariam em apenas responder que está tudo bem. Não a Vera. Ela tem uma necessidade reptiliana em me contar que a filha tem um marido cachaceiro. Se a Vera fosse minha sogra, eu beberia também.

- Estou com alguns problemas de saúde também.  — ela continuou.

- Na sua idade, o estranho seria se não tivesse nenhum.  — respondi, percebendo que pensei alto demais e falei merda. Às vezes isso acontece comigo.

Ela me olhou por alguns segundos e soltou uma grande gargalhada, cuspindo um pouco em meu braço. Ela riu tanto que dava pra ver a parte de cima da dentadura tremendo.

- Como você é engraçado, Ernesto.  — disse ela, dando um tapinha em meu braço.

Geralmente essa minha mania de falar umas merdas sem pensar me prejudicava um pouco. Já tomei soco, levei fora e até hoje a minha prima não olha na minha cara por eu falar que o bebê dela não parecia humano, mas hoje isso foi longe demais. Essa piada inocente causou algo pior, algo terrível. Um vínculo com a Vera.

- Eu estou velha mesmo, mas na minha época eu era uma das mulheres mais bonitas da minha cidade.  — ela completou.

Toda velha fala isso. Eu nunca conheci uma mulher de idade que falasse “Eu sempre fui feia, desde a infância. Era mais jovem e tinha as coisas apontando pra cima, mas feia eu sempre fui”.

- Você está namorando? — ela perguntou.

Finalmente chegamos a esse ponto. Não se tem uma dessas conversas sem a pergunta particular que constrange. Eu assumo que, dessa vez, metade da culpa é minha.

- Não. – disse, tentando encerrar a conversa.

Parece que toda vez que eu desço com a Vera, o elevador anda dez vezes mais devagar. É como se Deus se unisse à ThyssenKrupp para acabar com a minha manhã.

- Chegamos.  — ela narrou, como se a abertura das portas não fosse suficiente para que eu tirasse essa conclusão.

Ela desceu na frente, e logo parou para conversar com o pobre Porteiro.

Eu não sou uma pessoa ruim, mas torço por uma intervenção do acaso que a force a ficar em casa. Pelo menos por um tempo. Nada grave ou fatal. Só que ela caia na rua e quebre a bacia. Para que, pelo menos por um tempo, eu possa descer em paz no elevador.

FIM