XAVECO

Marcos não sabia ficar sozinho. Desde seu primeiro namoro de mentirinha na pré-escola. Foram namoros atrás de namoros até seu último, que se transformou em casamento e, anos depois, divórcio.

Arrumar uma namorada nunca foi um problema. Sua aparência não era ruim. Não era um feio gritante e nem um bonito glorioso. Era um homem normal, com um rosto redondo, como se fosse um querubim que cresceu envolto em melancolia e desesperança, mas agora o mundo era outro, a tecnologia havia tomado conta. Existiam aplicativos, e-books e sites com dicas de paquera, tudo para conhecer mulheres.

Em um desses sites ele buscou uma estratégia de aproximação infalível.

- Qual seu maior sonho na vida? – berrou Marcos, surpreendendo e quase derrubando uma mulher de seu assento. Ele olhava diretamente nos olhos da mulher. Sua postura era confiante.

Ele estava em um bar lotado. Pessoas rindo, bebendo e se divertindo como se não houvessem boletos vencidos no mundo. O local era amplo, arejado e bem iluminado. A mulher em questão estava confortavelmente sentada em um banco no balcão do bar. Até o momento da abordagem kamikaze de Marcos, ela estava entretida em seu próprio martini.

- Meu maior o quê? - ela perguntou.

- Sonho.

- É alguma pesquisa ou algo assim?

- Não. Só queria puxar conversa.

- E você chega perguntando meu maior sonho? Que tal “Oi, como vai?”. – disse a mulher, entornando o que restava em sua taça. - Isso já funcionou alguma vez?

A linguagem corporal de Marcos murchou.

- Na verdade é a primeira vez que eu tento. – explicou.

- E de onde você tirou que essa é uma abordagem válida?

- Eu li que chegar assim de surpresa ajuda a quebrar o gelo.

- Quase te ajudou a levar um soco e um spray de pimenta na cara.

Passado o susto, a voz da mulher suavizava a cada palavra pronunciada. Ao pedir seu próximo martini ela já se mostrava confortável em seu assento novamente.  

- Eu me senti um pouco agressivo mesmo. - assumiu Marcos. 

- Você parecia um psicopata.

- Eu juro que não sou. Vou começar novamente. – disse Marcos se sentando ao lado da mulher. Ele se levantou novamente em um pulo. – Posso me sentar?

Ela fez que sim.

- Eu sou Marcos, qual seu nome? – disse ele se acomodando e estendendo a mão para a moça.

- Olá Marcos, eu sou a Denise. – disse, dando-lhe um sedoso aperto de mão. – Você sempre aborda as mulheres como um maníaco homicida?

- Você é a primeira mulher que eu abordo em um bom tempo. Eu saí recentemente de um relacionamento longo e estou um pouco enferrujado, por isso pesquisei algumas coisas em sites especializados.

- Já viu que não é uma boa ideia seguir os conselhos desse site.

- Quem dera eu soubesse disso antes de hoje à tarde. - disse Marcos, enquanto Denise tomava um gole de seu martini. 

- Me conta o que aconteceu. – disse Denise.

- Eles indicam fazer um procedimento que se chama clareamento especial com alvejante...

Colocando a mão em seu braço, Denise o interrompeu.

- Eu quis dizer o que aconteceu com o seu relacionamento.

- Ah sim. Nós tivemos algumas diferenças, conversamos e achamos melhor separar.

- Ah, entendi. Ela deu pra quem? – disse Denise, sem muita cerimônia.

 

- Pra ninguém.

 

Marcos se mostrava ultrajado. Denise apenas o encarou até que ele cedeu:

 

- Ok. Foi pro personal trainer dela.

 

- Que decepção. – disse Denise tomando enxugando o resto de seu martini e já pedindo outro.

 

- Acontece. – disse Marcos, tentando parecer mais conformado do que realmente estava.

 

- Não é a traição que me incomoda, é a falta de criatividade. Dormir com o Personal é tão cliché.

 

- Enfim... – disse Marcos, tentando encerrar o assunto.

 

- Nunca vi ninguém terminar porque a mulher deu para o Padeiro.

 

- Vamos... – disse Marcos, novamente tentando interromper.

 

- Ou para o tio da pipoca. – disse Denise, empolgada com a mera ideia. - Imagina uma relação que terminou com um triângulo amoroso envolvendo o tio da pipoca.

 

Marcos fechou a cara. Ele se mexia no banco como se tivesse formigas na calça.

 

- Chega desse assunto. – bradou. – Mas espera um pouco, como você adivinhou que meu casamento acabou assim?

 

- É o que geralmente acontece.

 

- Como você sabe que foi ela quem traiu?

 

- Não sei. Não te vejo com um cara que trai a mulher. –Marcos se deleitou com o elogio, até que ela completou. – Muito menos com uma vibe de comedor.

 

- De corno sim?

 

- Não que você tenha cara de corno. – justificou Denise. – Mas entre corno e comedor, eu diria corno.

 

- Por quê?

 

- Instinto. Sabe quando você olha alguém na rua e fala “Esse cara chora no banho”, tipo isso.

 

- É algo que eu consiga mudar?

 

- Claro. Você pode dar uma repaginada no visual.

 

- Tipo mudar o cabelo?

 

- O Cabelo, deixa a barba crescer um pouco. Dar uma malhada. Não conhece algum personal que não tenha dormido com a sua esposa?

 

- Pior que não. – refletiu Marcos. - Mas agora eu queria saber, você não quer sair pra jantar comigo qualquer dia?

 

- Você nem me conhece e quer sair comigo?

 

- Então me fala um pouco sobre você.

 

- O que eu posso te falar? Eu gosto de martini.

 

- Eu te conto que sou corno e você vem com “Eu gosto de martini”. Eu sei que você gosta de martini, já bebeu três desde que eu sentei aqui.

- Você não falou, eu adivinhei. E eu não costumo falar de mim para estranhos.

- Qualquer coisa. Escolhe alguma coisa entre “Eu gosto de martini” e o seu maior sonho. 

 

- Me deixa pensar. – disse Denise. – Eu não gosto de ir à academia.

 

- Tenho gostado de mulheres assim. Acho que podemos sair para jantar.

 

- Tudo bem, mas tenho um problema sério que você precisa saber.

 

- O que é? – disse Marcos, reticente.

 

- Eu adoro pipoca.

 

FIM